sábado, 8 de novembro de 2014

PETER EM FÚRIA


 
         O entusiasmo com que o diretor William Costa Lima fala do coletivo O Pequeno Teatro de Torneado é contagiante. A maneira como ele recebe o público e convida a todos para compartilharem o espetáculo que vai ser apresentado é um grande exemplo de acolhimento que deveria ser seguido por todos aqueles que fazem teatro. Quando fui jurado do prêmio da Cooperativa Paulista de Teatro em 2012 dei uma sugestão (que não foi aceita) para se criar uma categoria de prêmio de acolhimento. Se existisse tal prêmio, William seria um forte candidato a ele.
         Neste ano tive a oportunidade de assistir a dois espetáculos de O Pequeno Teatro de Torneado: o intimista O Girador e agora o épico Peter em Fúria; dois trabalhos bastante distintos, mas ambos de muita qualidade.
         Em um documentário sobre Peter em Fúria, William Costa Lima comenta que em muitos lugares da periferia muitas crianças não crescem porque morrem antes. Não têm a opção de Peter Pan de não querer crescer, elas simplesmente não podem crescer porque morrem subnutridas ou assassinadas antes de atingir a idade adulta. Esse é o mote principal da peça inspirada em Peter e Wendy escrita em 1904 pelo inglês J. M. Barrie (1860-1937). A ação foi transposta para uma favela num bairro periférico da cidade de São Paulo e o que era conto de fadas virou a crua realidade: logo no início Peter mata a tiros um colega da comunidade sob a vista de outros companheiros que parecem curtir o fato.
         A peça apresenta vários núcleos e personagens que em dado momento tornam a situação confusa. Ao meu modo de ver seria interessante dar uma “enxugada” no texto, para torná-lo mais claro para o público a que se destina.
         O elenco composto por quase trinta jovens oriundos de todos os cantos da cidade respondem ao entusiasmo de seu diretor em igual intensidade. Atuam com as emoções à flor da pele como se aquele fosse o último dia de suas vidas. Cá ou lá se pode notar alguma deficiência interpretativa, mas nada que comprometa o resultado final. Pelo destaque de suas personagens, cabe salientar as presenças de Pablo Juan (Peter), Aguida Aguiar (Sininho), Higor Moura (João) e de Júlia Calderoni que desempenha a mãe do rapaz que Peter matou e que é responsável pelo pungente monólogo quase ao final da peça quando lança uma maldição sobre Peter.
         Ponto alto do espetáculo é a trilha composta por William e Bruno Lourenço, este último também responsável pela direção musical. As canções são interpretadas ao vivo pelo afinadíssimo elenco.
         Peter Pan é trabalho digno feito por jovens comprometidos com a realidade em que vivemos e merece ser prestigiado por quem acredita num teatro além do mero entretenimento.

         ÚLTIMAS APRESENTAÇÕES no Espaço Redimunho: 16/11 e 22/11 às 17h e 25/11 às 20h (apresentação fechada para convidados e imprensa).

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

PRETO NO BRANCO



 
         As recentes manifestações de ódio em relação aos nordestinos que têm infestado as redes sociais escancaram o preconceito que a sociedade brasileira insiste em alardear que não existe. Preconceitos, quer sejam de raça, de sexo ou de classe sempre temperados com ódio e intolerância, são expostos diariamente e sempre nos perguntamos quem são os monstros que estão por detrás dessas manifestações. Serão asquerosos ao olhar? Tipos mal encarados?
         Seria fácil evitá-los se assim fosse. O perigo é que eles têm a cara de Jane Jones, uma das personagens mais odiosas já surgidas em nossos palcos, que na aparência se assemelha àquela senhorinha simpática que mora ao lado de sua casa.
 
 
         Jane Jones e seu hipócrita, abestalhado e também preconceituoso marido James Jones formam um casal burguês e são os pais de John Jones e Jenny Jones. Os Jones moram “numa das maiores cidades do nosso país” e se auto proclamam muito liberais. Papai Jones nada mais é que um vendedor de armas que se aproveita de países em guerra e assassinos para desovar seus produtos. Tudo vai bem até que a caçula Jones traz para casa seu novo namorado: um negro muçulmano chamado Kwesi. Esse é o início da trama de Preto no Branco (Mirror Teeth, no original), peça do jovem (34 anos) dramaturgo britânico Nick Gill, dirigida por Zé Henrique de Paula, em cartaz no Sesc Bom Retiro.


         Ri-se muito no início do espetáculo. Os passinhos de entrada em cena de Marco Antônio Pâmio ao voltar do trabalho são antológicos e divertidíssimos. Seu diálogo com Mamãe Jones é digno do melhor Ionesco e Clara Carvalho está impagável como a detestável Jane. À medida que a peça avança o riso do público vai se tornando mais fraco e mais nervoso, uma vez que vamos colocando em cheque nossos próprios valores e preconceitos. A segunda parte da peça, quando eles se mudam para “uma das maiores cidades do Oriente Médio” é insuportavelmente divertida. Preto no Branco é um mais que necessário soco no estômago.
         Zé Henrique de Paula ambienta essa história num cenário asséptico, “embrulhado para presente, com papel colorido e um laço de fita”, para usar as palavras de Clara Carvalho contidas no programa e cercado de seu grupo do Núcleo Experimental, realiza um dos espetáculos mais urgentes da atual temporada teatral.
         Muito já se falou do talento do par central, mas nunca é demais comentar que Clara Cavalho realiza uma de suas melhores composições e Pâmio está não menos que brilhante, ambos vivendo personagens muito mais velhas do que eles. Eles são muito bem secundados pelos jovens atores que fazem os filhos e o namorado.
 
 
         Preto no Branco é versão amarga, cruel e politicamente incorreta de uma antiga comédia romântica norte americana intitulada Adivinhe Quem Vem Para Jantar; nesta havia happy end, Preto no Branco não  deixa pedra sobre pedra e saímos do teatro com aquele sorriso amarelo que denuncia a questão: “O que é que eu tenho a ver com isso?”.

         Preto no Branco cumpre temporada no Sesc Bom Retiro às sextas (20h), sábados (19h) e domingos (18h) até 30 de novembro, transferindo-se depois para o Teatro do Núcleo Experimental. NÂO DEIXE DE VER.
 
        Fotos de Ronaldo Gutierrez

 

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

FazDeConta



Foto de Pedro Vicente

                O britânico Alan Ayckbourn (1939-) é um dos autores vivos mais encenados em todo o mundo. A primeira encenação de uma de suas peças em São Paulo foi em 1975 (Absurdas Pessoas, dirigida por Renato Borghi), depois, por cerca de 30 anos, os encenadores paulistas ignoraram a obra do dramaturgo. A partir da segunda década do século 21, talvez por influência das bem sucedidas adaptações de suas peças para o cinema por Alain Resnais e também por iniciativa dos ayckbourneanos Eduardo Muniz e Alexandre Tenório, ele voltou à cena paulistana com a montagem de vários de seus títulos. Fato muito bem vindo haja vista tratar-se de dramaturgia atualíssima tanto na forma como no conteúdo, como bem disse o diretor Sir Peter Hall (1930-): “Se, daqui a cem anos, alguém quiser saber como foi viver na segunda metade do século 20 – e eu acrescentaria, nas primeiras décadas do século 21-, tenho certeza que irão atrás das peças de Alan Ayckbourn, antes de consultarem livros de história e sociologia”.

                Traduzida por Alexandre Tenório e levada à cena por Kiko Marques está em cartaz no Instituto Capobianco a peça FazDeConta (RolePlay, no original), escrita em 2001, sendo a última da trilogia chamada Donzelas em Perigo (Damsels in Distress), que inclui GamePlan e Flatspin.

                A partir de um fato corriqueiro (um jovem casal burguês prepara um jantar para seus pais para anunciar que vão se casar) o autor faz uma crítica feroz à sociedade inglesa (que também pode ser a nossa) e a seus valores cheios de preconceitos e ideias conservadoras. Ri-se muito durante o espetáculo, mas leva-se para casa a reflexão sobre fatos ocorridos atualmente nos cenários brasileiro e do mundo.

                A jovem Vil Companhia formada por egressos do curso de teatro do Indac cercou-se de profissionais muito competentes para produzir seu espetáculo como o diretor Kiko Marques, o cenógrafo Chris Aisner (cenário realista idealizado nos mínimos detalhes), Raul Teixeira (criou uma deliciosa trilha sonora baseada em hits da música popular norte americana das décadas de 1950 a 1970) e do ator/diretor Fernando Neves que faz uma participação para lá de especial. Junte-se a isso o talento desses jovens atores que realizam um trabalho impecável de interpretação: Márcio Macedo que faz o jovem noivo lembra Kiko Marques na atuação, Ricardo Blat na aparência e Woody Allen na personagem atrapalhada que interpreta, fatos que destaco como um elogio a esse jovem e promissor ator; Letícia Soares, apesar de bastante jovem para a personagem Arabella, compõe uma deliciosa senhora alcoólatra e transgressora para o meio em que vive; Érica Kou faz a personagem mais difícil da peça (uma dançarina de strip tease rebelde); Fernando Neves cria com muita verve uma figura ridícula metida a engraçadinha; nos outros papeis conta-se com a boa presença de Elienay da Anunciação, Paulo Mendonça e Lu Severi. Desejo longa vida a esse grupo que começa com o pé direito sua profissionalização no teatro.

                Não há como não comentar a contribuição para o espetáculo de Fernanda Capobianco, batalhadora administradora do Instituto Capobianco que com sua perseverança tem viabilizado  a realização de espetáculos importantíssimos como Cais ou Da Indiferença das Embarcações e Gotas D’Água Sobre Pedras Escaldantes. Ir ao Instituto Capobianco é a certeza de se ter  bom acolhimento e de se assistir a um espetáculo de nível.
 
                FazDeConta está em cartaz no Instituto Capobianco às segundas, sábados e domingos às 20h até 08 de dezembro.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

(SELVAGENS) HOMEM DE OLHOS TRISTES



            Händi Klaus é um autor desconhecido no Brasil e há pouquíssimas informações sobre ele na Internet (fonte disponível para pesquisas breves). Até onde eu sei trata-se de um jovem dramaturgo austríaco contemporâneo que já contabiliza alguns prêmios em sua carreira. O que importa é que pelas mãos do encenador Hugo Coelho nos chega o instigante Selvagens-Homem de Olhos Tristes, em cartaz no Club Noir.
            Um médico, sufocado pelo calor, desce do trem algumas estações antes daquela de seu destino. O encontro com dois irmãos, a princípio muito corteses, o faz empreender uma viagem sem volta, digna das melhores obras de Kafka.
            A peça, com diálogos breves, prima pelo uso das palavras num contexto que beira o absurdo becketiano, para citar mais um autor que deve ter inspirado Händi Klaus.
 
Divulgação
 
            Bastante curta e concisa, a peça é dividida em quatro partes:
            - A chegada do médico e a conversa com os dois irmãos.
            - A caminho da casa dos irmãos, encontro com um velho que eles agridem.
            - Na casa, encontro com a irmã. Os irmãos saem para buscar água e cria-se um clima erótico entre o médico e a moça.
            - Os irmãos voltam e o velho aparece como o pai. Há um black out e quando a luz retorna temos uma surpresa (reservada para quem assistir à peça).
            O calor do ambiente torna-se mais sufocante pela escassez de água no local, o que torna a peça mais oportuna em função da atual crise hídrica em São Paulo.
            As duas primeiras partes são bastante dinâmicas, sendo que o ritmo do espetáculo decresce na segunda metade.
            A direção de Hugo Coelho é limpa, concentrando-se na melhor maneira de fazer as intenções fluírem, quer pela expressão vocal como pelo gestual preciso concebido por Inês Aranha.  Em concordância com a direção, o cenário é limpo e vazio contando com alguns poucos objetos de cena e com a discreta iluminação de Fran Barros.
            Rubens Caribé que realizou um belíssimo trabalho no primeiro semestre em (Assim É) Se Lhe Parece, reafirma seu talento na interpretação do médico, apesar de exagerar no volume de voz em alguns momentos.
            Edu Guimarães e Vitor Placca estão excelentes no pingue-pongue vocal da primeira parte do espetáculo.

 Com o diretor Hugo Coelho e Rubens Caribé ao final do espetáculo - Foto de Eliane Verbena
 

            Selvagens-Homem de Olhos Tristes revela, por meio da eficiente encenação de Hugo Coelho, texto de um autor que merece ser descoberto. Em cartaz no Club Noir às quartas e quintas às 21h até 18 de dezembro.

 

sábado, 18 de outubro de 2014

ILHADA EM MIM - SYLVIA PLATH



        Eu queria ter veia poética para poder traduzir com palavras adequadas todas as sensações que tive ao assistir Ilhada em Mim em cartaz no auditório do Sesc Pinheiro. A encenação de André Guerreiro Lopes é absolutamente sensitiva e fica difícil escrever sobre ela de maneira racional, mas  vou tentar!
     Era muito importante contextualizar a obra e a vida da poetisa americana Sylvia Plath (1932-1963) e de seu companheiro, também poeta Ted Hughes (1930-1998) para o espectador adentrar no universo do casal; tal fato se apresentado de forma realista iria totalmente contra o viés poético que André Guerreiro Lopes concebeu para o espetáculo e a solução encontrada não poderia ser mais bela: com a presença semi estática do casal numa cena onde a água está presente no chão e nos pingos que gotejam de objetos de gelo, ouve-se uma entrevista original que Sylvia e Ted deram para a BBC no início dos anos 1960. O que se ouve (uma conversa suave sobre como se conheceram) contrasta com as ações ao vivo onde as expressões de Sylvia revelam a angústia que irá permear toda a peça e aquelas de Ted já demonstram sua indiferença e sentimento de superioridade em relação a ela. Dessa maneira o publico tem informações suficientes para o que vem a seguir.
     Em um artigo de Rodrigo Garcia Lopes sobre a poetisa, há a citação de uma frase do poeta russo Ievguêni Ievtuchenko (1933-) que diz: “A autobiografia de um poeta é sua poesia. O resto não passa de nota de rodapé”. O encenador, conhecedor ou não dessa frase, segue a mesma linha de pensamento na realização do seu espetáculo. Se não são as poesias, são frases ditas por Plath que compõem o texto costurado por Gabriela Mellão e tão bem traduzido cenicamente por Guerreiro Lopes.
 
 
     Essa tradução cênica revela-se no cenário  cheio de metáforas como a água que pinga dos objetos de gelo (A vida que se esvai? O tempo que passa?), cadeiras e sofás semi enterrados, a água que envolve a cena e que pode ser tanto sinal de vida como de morte (o gás que matou Sylvia). Aqui sinto falta daquele pendor poético citado acima para poder significar todas as sensações produzidas pelo cenário, parte integrante e fundamental da dramaturgia de cena.
     Aliem-se ao cenário, o precioso desenho de luz de Marcelo Lazzaratto e a significativa trilha sonora de Gregory Slivar.
 
 
     E por último... OS ATORES! André Guerreiro Lopes compõe um Ted arrogante e senhor de si que destrói escritos da companheira com prazer insuportável (momento excelente do espetáculo onde os efeitos sonoros sincronizados com o amassar dos papéis ampliam os gestos do ator). Djin Sganzerla, pessoa delicada e singela dotada de grande beleza, adquire em cena a máscara trágica de Sylvia Plath em seus últimos dias de vida e que expressa sua angústia interior, suas fraquezas e sua dependência e amor por um homem que só a diminuiu e desprezou.
     Ilhada em Mim revela-se um belo momento do teatro, onde a poesia sobe à cena para contar um pouco sobre Sylvia Plath, por meio da memorável interpretação de Djin Sganzerla  e da sensível e poética direção de André Guerreiro Lopes.
     Ah! Se eu fosse poeta escreveria muito mais...
 
     Auditório do Sesc Pinheiros. De quinta a sábado às 20h30. Até 01 de novembro.
 
     FOTOS DE LENISE PINHEIRO

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

A REPRESENTAÇÃO CHILENA NO MIRADA 2014


        
         Na segunda metade do século 20 praticamente todos os países da América Latina padeceram com ditaduras militares e as feridas dessas experiências estão longe da cicatrização. Perda de direitos civis, torturas, censura e desaparecimento de presos políticos foram fatos constantes nesses tempos de triste memória. Qualquer ditadura é nefasta, mas algumas foram mais violentas e/ou mais longevas. A do Brasil durou de 1964 a 1985, a da Argentina foi curta (1966-1973), mas uma das mais violentas e a do Chile, liderada pelo general Pinochet, conseguiu reunir as duas coisas: truculência e longevidade (1973-1990). Depois desses anos de fúria e de silêncio, o país se redemocratizou, seus cidadãos altamente politizados já elegeram presidentes de esquerda e de direita, mas as marcas deixadas pelas botas de Pinochet ainda podem ser notadas na sociedade chilena e por consequência na arte produzida por ela.
         O Chile foi o país homenageado na terceira edição do MIRADA (Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas de Santos promovido pelo Sesc). Os sete espetáculos apresentados primaram pelo alto nível profissional, apresentando formas e conteúdos bastante diversos, todos eles, porém, de uma maneira ou de outra denunciando (ou refletindo sobre) a luta pelo poder, o abuso de autoridade e o uso da violência pelos poderosos, fatos corriqueiros nos 17 anos em que o país viveu sob o jugo dos militares e que podem ressurgir a qualquer momento. Mais do que nunca, relembrar é preciso, conforme o fazem os trabalhos apresentados no MIRADA e que são resenhados a seguir.
 
A Imaginação do Futuro - Foto de La Resentida

         A peça que abriu a mostra santista foi A Imaginação do Futuro da Compañia La Resentida. Espetáculo anárquico e politicamente incorreto que procura retratar a situação política do Chile atual por meio de uma visão irreverente e pouco abonadora de Salvador Allende e de seus últimos dias na presidência do Chile. A visão que o grupo tem do governo socialista de Allende é bastante discutível, porém não se pode negar que o espetáculo tem muita energia e conta com elenco jovem e talentoso.
 
O Jardim das Cerejeiras - Foto de Dana Hosova

         Em outro extremo, seguindo a linha mais tradicional do chamado teatro “bem feito”, o grupo Teatro Camino apresentou O Jardim das Cerejeiras, um Tchekhov na medida certa: boas interpretações para as já clássicas personagens da peça, cenário simples e sugestivo, iluminação dando ao ambiente cor sépia e direção delicada que privilegia as palavras do belo texto do autor russo. A peça é um manifesto contra o uso do poder econômico, no caso representado pelo personagem Lopakhin.
 
Otelo - Foto de Rafael Arenas

         Otelo da Compañia Viajeinmóvil é ótimo exemplo de como realizar adaptação inteligente de um clássico: dois atores/manipuladores representam o quarteto principal da tragédia de Shakespeare: Otelo e Desdemona (bonecos), Iago e Emília (atores). A manipulação dos bonecos é precisa e em certos momentos o corpo do boneco se confunde com o do ator criando efeito bastante interessante. Jaime Lorca e Teresita Iacobelli são atores com pleno domínio de seu ofício alterando com muita flexibilidade as entonações de cada personagem a que dão voz. Apenas uma cama, alguns objetos e os bonecos com as cabeças de Otelo, Desdemona e Cassius são suficientes para os dois atores nos contarem a triste história do mouro de Veneza, sob o ponto de vista do maquiavélico manipulador Iago.
 
O Cavaleiro da Morte - Foto de José Cetra
 
O Homem Vindo de Nenhuma Parte - Foto de Pablo Sepulveda

         O teatro de rua é bastante difundido no Chile e se fez representar com dois espetáculos no MIRADA: O Cavaleiro da Morte do grupo La Pato Gallina usa a estética dos filmes mudos para contar a saga do herói nacional Manuel Rodriguez que lutou pela liberdade do Chile. Visualmente muito bonita a peça apresenta os atores com máscaras expressionistas de cor preta que contrastam com o cenário branco, a música que comenta a ação é tocada ao vivo por uma banda de rock. É importante notar que o espetáculo está em repertório há 14 anos com o elenco original. O Homem Vindo de Nenhuma Parte do grupo La Gran Reyneta se vale de estética bastante distinta usando enormes aparatos técnicos e humanos para movimentar uma nave que vira barco, uma mão gigantesca que persegue o herói, tablados que podem ser ora um cemitério ora uma ilha paradisíaca, efeitos de explosão e de bombas. Em oposição a essa tecnologia pesada a trama é bastante simples contando as viagens de um homem no tempo e no espaço. Ambos os espetáculos são exemplos de teatro de rua bem produzido e que atinge o público a que se destina.

A Reunião - Foto de Jorge Becker

         Além de O Jardim das Cerejeiras, o teatro essencialmente de palavras foi muito bem representado pelo mais radical A Reunião, trazido pelo grupo Teatro em El Blanco (do qual São Paulo já teve a oportunidade de receber Diciembre e o emblemático Neva). Estreia de Trinidad González como autora e diretora, A Reunião reafirma o grande talento interpretativo da atriz como a Rainha Isabel da Espanha num embate com Cristovão Colombo que foi aprisionado por abuso de poder. Diálogos ágeis e cortantes num trabalho com pouca movimentação cênica e cenário mínimo, onde a presença do ator faz o espetáculo. Trinidad revela todo seu potencial dramático tanto nas falas como nos silêncios e é bem coadjuvada por Nicolas Pavez como Colombo.
 
Castigo - Foto de Valentino Saldivar

         Castigo do grupo Teatro La Memoria é espetáculo singular. Aqui a palavra é mínima e o gestual também. O pouco que acontece o faz de maneira muito lenta como o menino olhando para o espelho, a empregada preparando a mesa para o jantar e depois servindo a sopa, a reza antes da refeição, a criada cantando enquanto a família come. Após o castigo que o menino recebe do pai, o realismo é bruscamente quebrado por meio de uma tempestade de neve que invade a casa e aniquila quase toda a família (o menino se safa entrando em cena após o desastre com ar de vitória e de vingança). Baseado em texto autobiográfico de August Strindberg o espetáculo é muito bonito e tem feições da Europa nórdica lembrando os quadros do pintor holandês Vermeer. 60 minutos do mais puro teatro.                                   
         Ao meu modo de ver, Castigo e A Reunião foram os melhores espetáculos não só da representação chilena, mas de todo o MIRADA.

         Como se vê a representação chilena primou pela diversidade e pela alta qualidade sempre lembrando que a liberdade de expressão é um direito adquirido com muita luta e que deve ser preservada a qualquer custo.   Outra prova da efervescência teatral chilena é a realização em janeiro de cada ano do Santiago a Mil, um dos mais importantes festivais internacionais de teatro realizados na América Latina.
 
 

 

 

 

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

QUE ESPAÇO OCUPA UMA AUSÊNCIA?


 
                Curitiba tem presenteado São Paulo com ótimos e consistentes espetáculos teatrais. A Companhia Brasileira de Teatro dirigida por Marcio Abreu é uma presença constante desde 2006 quando se apresentou por aqui com Suite 1 no Instituto Capobianco. Neste segundo semestre de 2014, após o mágico Tchekhov da  Ave Lola Espaço de Criação, dirigida por Ana Rosa Tezza (ainda em cartaz no Sesc Santana), eis que nos chega este instigante Obscura Fuga da Menina Apertando Sobre o Peito Um Lenço de Renda de autoria do dramaturgo argentino Daniel Veronese, pela CiaSenhas de Teatro dirigida por Sueli Araujo que estreou ontem no Sesc Belenzinho.
                Um espaço cênico muito interessante representando os cômodos de uma casa em processo de deterioração (metáfora para a condição daquela família) recebe o público que é acomodado, parte em uma plateia tradicional em arena e parte em cadeiras giratórias bem no olho do furacão aonde vai se desenrolar a ação.
 
 
                O primeiro estranhamento acontece quando os papéis do casal são invertidos: um ator representa a mãe e uma atriz representa o pai. Fazem isso com pequenos adereços na parte superior do corpo (um bigode e uma gravata para o pai; peruca, brincos e blusinha de renda para a mãe).
                Martina, a filha do casal, abandonou o lar e deixou uma carta para os pais. A peça inicia com um jogo de acusações mútuas entre o pai e a mãe e tudo leva a crer que o público vai presenciar um melodrama familiar. A salutar reviravolta acontece quando entram em cena o namorado e uma amiga da garota cada um deles trazendo uma carta que receberam de Martina. Contar mais seria tirar o prazer de quem vai assistir ao espetáculo, mas posso dizer que os diálogos travados entre os quatro são absurdamente interessantes. O dramaturgo, sabiamente, coloca um carteiro em cena para o desfecho de sua narrativa.
 
 
                A direção de Sueli Araujo dá ênfase ao trabalho dos atores e às suas movimentações em cena. Os objetos de cena também mudam de lugar como para demonstrar a instabilidade daquela casa.
                Por que Martina foi embora? Quem ali está com a razão? Martina realmente existe ou é fruto da imaginação daquele casal frustrado e problemático?  QUE ESPAÇO OCUPA UMA AUSÊNCIA? A peça não quer responder a essas questões, mas sim colocá-las para o público que sai aturdido após a forte cena final entre o pai e a mãe. Avis rara no atual cenário teatral, Obscura Fuga... é espetáculo de reflexão, para ser digerido na hora de colocar a cabeça no travesseiro e esperar que depois dessa experiência se tenha um sono tranquilo.
 
 
                Luiz Bertazzo que foi visto há pouco em Homem Piano (outro espetáculo do grupo) desempenha com rigor a mãe. Trabalho de composição precisa com perfeita dosagem entre emoção e razão. Greice Barros o acompanha à altura e sua fragilidade física dá um toque especial à figura do pai. Ciliane Vendrusculo sai-se bem como a agressiva amiga (que parece também ter tido um caso com a garota desaparecida). Em papéis menores, Jeff Bastos e Rafael di Lari dão conta dos mesmos.
                A trilha sonora de Ary Giordani é irregular. Tem momentos muito interessantes que reforçam o suspense das cenas, por outro lado às vezes é tão presente que parece querer tornar-se mais importante desviando a atenção do espectador que se pergunta: Para que esse som neste momento?
 
                Obscura Fuga da Menina Apertando Sobre o Peito Um Lenço de Renda é espetáculo obrigatório para quem espera do teatro algo mais do que puro entretenimento. Faz-nos refletir não só sobre nosso comportamento no seio familiar, mas como em toda a sociedade. Em cartaz no Sesc Belenzinho de quinta a sábado às 21h30 e domingo às 18h30 até 02 de novembro. Duração:70 minutos.
 
Fotos de Lenise Pinheiro