sábado, 3 de março de 2018

TEATRO AUGUSTA



        No final dos anos 1960 e início da década de 1970, em plena ditadura militar, o Baixo Augusta era tomado por aquilo que a esquerda festiva chamava de divertimento burguês e alienado. Ali proliferavam boates e bares onde era comum se assistir a shows de Leny Andrade, Johnny Alf, Roberto Carlos, Maria Bethânia e até Elis Regina (na A Baiúca na Praça Roosevelt). Não havia as saunas mixtas de hoje; eram boates frequentadas por estudantes e pela classe média alta que normalmente apresentavam ótimas atrações musicais. Em 1971 surge a famosa Boate Medieval, que mobilizou a ainda tímida comunidade gay paulistana. Quatro bons cinemas ocupavam a “baixa” Rua Augusta: Picolino, Majestic (atual Espaço Itaú de Cinema), Cosmos 70 e Marachá, mas não havia nenhum teatro na região.


        É nesse ambiente que em 1973, Luiz Sérgio Person (1936-1976) com o auxílio de Glauco Mirko Laurelli (1930-2013) inaugura em grande estilo o Auditório Augusta. O espetáculo inaugural foi El Grande de Coca Cola, dirigido por Person e interpretado, entre outros, por Armando Bógus, Cacilda Lanuza e Suely Franco. Era uma encenação no estilo cabaré onde uma família de artistas mambembes fingia-se de uma companhia com grandes atrações internacionais. Divertida e inconsequente a peça fez enorme sucesso, o que incentivou o diretor a partir para algo mais sério no ano seguinte e encenar Entre Quatro Paredes de Sartre.



        O maior sucesso do Auditório Augusta estava por vir. No mesmo 1974 Person dirige Orquestra de Senhoritas de Jean Anouilh. O teatro foi transformado em um café-concerto e as “senhoritas” eram interpretadas por homens, algo que remetia ao filme Quanto Mais Quente Melhor (1959) de Billy Wilder, a melhor comédia cinematográfica de todos os tempos. Paulo Goulart teve um dos grandes momentos de sua carreira, interpretando a impagável Madame Hortense, a líder tirânica da orquestra. A peça foi o fenômeno teatral da temporada de 1974 seguindo em cartaz até o ano seguinte. Foi o auge do Auditório, que além dessa atração principal, apresentava shows, exposições de arte e espetáculos em horários alternativos, caso de outro sucesso, o excelente Brecht Segundo Brecht, dirigido por Oswaldo Mendes.



        Em 1975 a casa apresenta a polêmica Lição de Anatomia, peça de origem argentina onde os atores se apresentavam nus.


        Com a morte de Person em 1976, a administração do teatro segue com Glauco Mirko Laurelli e até o final dos anos 1980 apresenta vários espetáculos significativos como A Noite dos Campeões, Volpone, Patética, Besame Mucho e Na Carrêra do Divino (2ª montagem).
        A década de 1990 não é das melhores para o espaço, culminando com o seu fechamento em 1995.


        Por iniciativa de Joaquim Goulartt a casa é reformada e reinaugurada em 1999 agora com o nome de Teatro Augusta. A partir daí surgem bons espetáculos como Visitando o Sr. Green com Paulo Autran, Navalha na Carne, Aldeotas, R&J, Cândida, alguns deles na Sala Experimental, pequeno espaço multiuso reservado para espetáculos experimentais/alternativos.
        Em 2015 o teatro passa para as mãos dos jovens atores Luciana Garcia e Tiago Pessoa que rebatizaram a sala principal com o nome de Paulo Goulart. Um sensacional retorno dos Dzi Croquettes e significativos espetáculos alternativos na Sala Experimental marcam positivamente a gestão de seus novos donos.
        Comemorando 45 anos em 2018, o Teatro Augusta é um dos mais importantes espaços cênicos da cidade de São Paulo e como todo teatro é um templo sagrado de esperança e utopia.  Espera-se que a curadoria (Isabel Pessoa) realize uma programação que contemple tanto o lado comercial como o artístico fazendo jus à tradição desse importante espaço cultural que enobrece o Baixo Augusta.



19/02/2018

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