“A arte tem de ter
algo que me tira do chão e deslumbra”
(Ferreira Gullar)
O grupo OPOVOEMPÉ e a dramaturgia de
Cristiane Zuan Esteves já haviam me surpreendido em 2020 com o instigante “Na
Polônia, Isso É Onde?” e a mágica de surpreender e deslumbrar repete-se com
“Las Neuronas” que infelizmente assisti no último dia em cartaz.
Partindo de um tema espinhoso que é o
perigo do uso desenfreado da internet, das redes sociais e agora da
inteligência artificial, Cristiane parte da obra da neurocientista espanhola
Nazareth Castellanos (1977-) para desfilar elementos da relação cérebro/corpo e
da apreensão dos perigos da exposição abusiva às redes sociais por meio de
neurociência.
Tais assuntos poderiam resultar em
espetáculo, ou melhor, aula didática, cansativa e soporífera, no entanto a
dinâmica direção da autora e as deliciosas interpretações dela, de Ana Luiza
Leão e de Manuela Afonso tornam o trabalho extremamente prazeroso de ser
assistido.
As três atrizes atuam em rara sintonia
com a plateia, encarando fraternalmente o público, buscando uma cumplicidade
com o mesmo para o alerta proposto. Pequenos jogos, como aquele com o uso dos
hashis (varetas de madeira usadas como talheres na cozinha japonesa) são
oferecidos ao público, que se entrega prazerosamente à dinâmica da encenação.
Não aprendendo a lição de casa
proposta pela peça consultei a inteligência artificial para saber que “neurônios
são células especializadas do sistema nervoso, funcionais básicas,
responsáveis por receber, processar e transmitir informações via sinais
químicos e elétricos”. As nossas queridas "neuronas” (ao que me consta o termo
não existe no feminino e é uma licença poética utilizada pelo grupo) se
encarregam de transmitir informações ao público via sinais lúdicos. poéticos e
extremamente teatrais, o resultado pode ser observado nas expressões de leveza
e alegria do público ao deixar a sala de espetáculos.
Com participações extremamente
equilibradas cada atriz tem seu momento de destaque, todas elas brilhando nos
solos e n as cenas de conjunto.
A sintonia ocorre nas sucessivas
trocas de olhares das atrizes com o público.
Mais que nunca é válida a expressão
que é quase uma súmula do espetáculo: “REALIDADE É AQUILO EM QUE PRESTAMOS
ATENÇÃO”. Abaixo a leitura superficial de “reels”, e notícias que só se
completam ao acessar os comentários que vêm recheados de propagandas e todo
lixo presente nas redes sociais)
LAS NEURONAS entretém, diverte e nos
faz pensar qual é a nossa posição perante todos esses perigos.
A peça saiu de cartaz do ºAndar neste
domingo (26/04), mas preste atenção que existe a possibilidade de nova
temporada. Em caso positivo, não faça como eu que deixou para o último dia e
corra para assistir.
E de lambuja é sempre bom ser recebido com muito afeto por Ana Paula e Anayan no aconchegante café do ºAndar.
26/04/2026
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