Samuel Beckett (1906-1989) escreveu
suas três peças mais conhecidas entre 1948 e 1960, período de pós guerra, onde
reinava certo ar de desesperança em uma Europa devastada pela segunda guerra
mundial.
Esse clima sombrio e de falta de
perspectiva está presente em “Esperando Godot” (1948/1952), “Fim de Partida”
(1957) e “Dias Felizes” (o título mais irônico do teatro!) (1960) e, com
certeza “Fim de Partida” é a mais desesperançada das três peças.
Entre
- “É o fim. Isto vai acabar.
Talvez...acabe” dito pelo personagem Clov no início da peça e
- “Visto que isso é assim... seja
assim e... não falemos mais nisso”, últimas palavras de Hamm agora totalmente
solitário já que Clov e o pai não respondem mais aos seus chamados.
acontece a ação da peça que é um
suceder de diálogos entre Hamm um homem cego, paralítico e autoritário e seu
serviçal (?) Clov, submisso e infeliz.
Em certos momentos entram em cena Nagg
e Nell, pais de Hamm que repousam, até felizes, em duas latas de lixo.
Das três peças, “Fim de Partida”
talvez seja aquela de maior dificuldade de comunicação com o público, mas isso
não é problema para Rodrigo Portella, diretor do presente espetáculo, que o faz
com rara sensibilidade.
Considero Portella “l’enfant terrible”
do teatro brasileiro.
Desde o memorável “Tom na Fazenda” em
2017, ele vem colecionando sucessos de crítica e de público com espetáculos
muito bem sucedidos (“Insetos”, “As Crianças”, “Ficções”, “[Um] Ensaio Sobre a
Cegueira”, “O Motociclista no Globo da Morte”, são algumas das encenações que
chegaram em São Paulo). Estão estreando em São Paulo este “Fim de Partida” e
“Tip”. “Deus da Carnificina” está em cartaz no Rio de Janeiro e já há outro
trabalho em ensaios por lá.
Currículo invejável nessa trajetória
de menos de dez anos a partir de “Tom na Fazenda” que o qualificam para o
título que lhe dei acima.
A encenação de “Fim de Partida” em
cartaz no SESC Pinheiros é primorosa desde o cenário limpo, mas claustrofóbico
de Daniela Thomas e iluminado pelo sempre brilhante Beto Bruel. Os figurinos
são de Antonio Guedes e a trilha sonora com toques de humor felliniano assinada
por Federico Puppi já prepara o público para o que há de vir com a cortina
ainda fechada. Portella harmoniza todo esse conjunto com as interpretações
soberbas do elenco.
O toque de mestre do diretor já se faz
presente no início da peça quando se ouve uma gravação com as rubricas da peça
e Clov se movimenta de acordo com as mesmas.
Helena Ignez (Nell) e Ary França
(Nagg) brilham nos momentos que lhes é permitido colocar as cabeças fora das
latas de lixo.
Marco Nanini empresta seu talento mais
que comprovado na composição do inerte Hamm, onde toda interpretação depende
apenas da parte vocal, pois não vemos os seus olhos nem movimentos corporais.
Grande destaque para Guilherme Weber
que interpreta Clov curvado o tempo todo com toques piolinianos(*),
chaplinianos e fellinianos, tudo ao mesmo tempo! Belíssimo trabalho.
Tudo isso faz de “Fim de Partida” um
espetáculo absolutamente IMPERDÍVEL.
Cartaz do SESC Pinheiros de 30/04 a 31/05. Quarta a sábado, 20h. Domingo, 18h.
(*) Refere-se a Piolin (1897-1973), um dos palhaços mais engraçados e humanos surgidos no circo brasileiro.
01/05/2026



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