“Ah, que dia feliz,
este terá sido mais um dia feliz.”
(Winnie, enterrada até o pescoço)
Enquanto houver desesperança e falta
de perspectiva no mundo Samuel Beckett (1906-1989) será atual e necessário.
A falta de perspectiva em uma Europa
devastada pela segunda guerra mundial está presente na trilogia da desesperança
de Beckett: “Esperando Godot” (1948), “Fim de Partida” (1957) e “Dias Felizes”
(1960) e de alguma maneira os dias de hoje marcados por muitas guerras e a
eminência de um caos climático também não oferecem muitas perspectivas para o
ser humano.
Em um ambiente inóspito, Winnie, a
personagem de “Dias Felizes”, está enterrada até a cintura e apesar do seu
interminável dia a dia e a presença do companheiro Willie que só reforça a sua
solidão, insiste em dizer que os dias estão e são lindos (me agrada o título da
peça em francês “Ah, les beaux jours!”). Mais tarde (no segundo ato), ela está
enterrada até o pescoço e continua clamando que os dias são lindos e felizes.
A nova montagem de “Dias Felizes” chega
a São Paulo pela “Armazém Companhia de Teatro”.
O cenário criado por Paulo de Moraes e
Carla Berri para a atual montagem reproduz o ambiente árido e íngreme sugerido
pelo autor e um sol inclemente inunda a primeira parte.
Patrícia Selonk que já foi Hamlet, já
foi Geni e já foi Próspero se propõe a esse novo desafio de ser Winnie e, mais
uma vez, o faz de modo brilhante.
A Winnie do primeiro ato ainda tem
braços e mãos para se distrair com o batom e a escova de sua bolsa, com uma
lupa, com o guarda chuva e até com um revólver. Selonk dá um toque carioca em
sua interpretação e a presença física de Willie (Jopa Moraes) dinamiza a ação.
O ambiente do segundo ato é mais
soturno concentrando-se na cabeça de Winnie e em um telão ao fundo que a
reproduz. A interpretação de Selonk é tão intensa que o espectador esquece a
imagem ao fundo que a meu ver nem era necessária tal é a força de sua
interpretação.
O suave abrasileiramento proposto por
Jupa Moraes na tradução do texto incorpora-se na encenação permitindo que
Winnie recite trechos de “Canteiros” de Cecília Meirelles e que ela cantarole
“Eu sonhei que estavas tão linda” no final da peça.
Em São Paulo Winnie já foi
interpretada por Fernanda Montenegro em 1996 (direção de Jacqueline Laurence),
Norma Bengell em 2010 (direção de Emílio Di Biasi) e Lavínia Pannunzio em 2023
(direção de César Ribeiro) e agora é a vez de Patrícia Selonk dirigida por
Paulo de Moraes, tendo em cena o filho Jopa Moraes como Willie.
Grande personagem! Grandes atrizes!!
Fotos de João Gabriel Monteiro
DIAS FELIZES está em cartaz no SESC Pompeia até 19 de julho. Quintas, 20h / Sextas, 16h e 20h / Sábados, 20h / Domingos, 18h.
26/06/2026

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