sexta-feira, 20 de março de 2015

ATO A QUATRO


Edu Guimarães, Nicole Cordery, Luciano Gatti, Joana Dória (Divulgação)
 

        Jane Bodie é uma dramaturga residente na Australia com peças montadas e premiadas em todo o mundo. Chega ao Brasil pela primeira vez pelas mãos de Bruno Perillo que teve contato com Fourplay (título original de Ato a Quatro) em sua viagem à Inglaterra em 2003.

        Alice, ex-atriz e atualmente cuidadora de pacientes e Tom, ator, estão com seu relacionamento em crise. Tom ensaia uma peça com a sedutora Natasha que acaba levando-o para a cama. Jack um ser estranho e gago trabalha com Alice e tem verdadeira obsessão por ela. As personagens estão definidas e as cartas estão jogadas. Jane Bodie revela-se uma exímia jogadora destas cartas conduzindo os espectadores por caminhos surpreendentes fazendo-o rir e se emocionar com as situações que ela cria e que Bruno Perillo soube tão bem traduzir cenicamente valendo-se do cenário de Chris e Nilton Aizner, da instalação audio visual de Flavio Barollo e dos ótimos atores que dão vida às personagens.

        A peça (que Tom ensaia) dentro da peça a que assistimos revela-se um exercício de metalinguagem delicioso e os momentos engraçados (a sedução de Tom por Natasha, as esquisitices de Jack e as reações de Alice às suas tímidas investidas) são equilibrados por aqueles de maior dramaticidade, como a volta de Alice à casa para pegar os seus pertences. Quatro personagens que procuram se relacionar intensamente, mas que na verdade são todos muito solitários. Solidão, a falta de comunicação e o imediatismo/individualismo da vida moderna (a cena dos recados gravados nas secretárias eletrônicas é emblemática) são os temas que Jane Bodie aborda de forma compassiva.

        A bela Joana Dória faz uma Natasha muito segura de si (é a única personagem que parece ter os pés no chão e saber o que quer: a fama); Luciano Gatti é o inseguro Tom que cai na primeira rede que aparecer; Edu Guimarães compõe um aparentemente frágil Jack que sabe impor sua opinião na hora certa. Se esses três atores estão ótimos, o que dizer da interpretação de Nicole Cordery? Uma surpresa e um arrebatamento! Nicole é uma daquelas atrizes de quem não se tira o olho mesmo quando ela está calada. Gestos precisos, máscaras na medida certa fazem de sua Alice, uma das personagens mais fascinantes surgidas nos últimos tempos em nossos palcos. Elenco jovem e coeso somado à direção segura de Perillo presta verdadeiro serviço ao teatro, pois alimenta a nossa vontade de voltar a acreditar nessa arte, em geral, tão maltratada.

        Ato a Quatro está em cartaz no Auditório do Sesc Pinheiros de quinta a sábado às 20h30 só até 04 de abril. NÂO DEIXE DE VER, VOCÊ NÃO VAI SE ARREPENDER.

 

20/03/2015

               

segunda-feira, 16 de março de 2015

BALANÇO DA 2ª MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo) – 05 a 15 de março de 2015.


 

         Numa maratona de 11 dias o público paulistano teve a oportunidade de entrar em contato com 12 espetáculos vindos da Rússia (2), Alemanha (2), Colômbia (2), Brasil (2), Holanda, Israel, Itália e Ucrânia. Sucesso de crítica e de público (casas lotadas em todos os espetáculos), o Mitsp consolida-se como o festival internacional de teatro oficial de São Paulo (como eu gostaria que a Ruth Escobar tivesse lucidez para curtir este grande acontecimento) e sua terceira edição já está agendada para o período de 04 a 13 de março de 2016, sendo que seus organizadores (os incansáveis Antonio Araújo e Guilherme Marques) já estão trabalhando na seleção das montagens que farão parte do evento do próximo ano.

         As grandes estrelas desta MITsp foram as encenações russas. Dois verdadeiros monumentos teatrais chegaram até nós.
 

         O primeiro pelas mãos de Yuri Butusov com sua genial e inovadora concepção de A GAIVOTA nos mostrando um Tchekhov operístico e melodramático (no melhor sentido da palavra), quase o oposto ao modo que se interpreta o grande dramaturgo russo, mas conservando e até ressaltando os grandes temas contidos na peça: o desencanto pela tediosa vida rural e os dilemas e inseguranças que o artista enfrenta durante o ato criador (é emblemático o tratamento dado à personagem do escritor Trigorín em sua cena com Nina). Além do conteúdo preservado, o espetáculo é de um esplendor visual pouco visto em nossos palcos. As quase cinco horas passam rapidamente e quando o espetáculo termina ficamos com aquela sensação de querer mais.
 

         OPUS Nº7 foi a outra montagem russa que tirou os pés do público do chão. Dirigida por Dmitry Krykov a encenação divide-se em dois atos, cada um com uma peça distinta, mas ambos tendo como pano de fundo as consequências funestas dos regimes autoritários. No primeiro (Genealogia) são enfocados a perseguição e o extermínio de judeus soviéticos e no segundo (Shostakovich) os danos que a censura do regime stalinista causaram à vida e à obra do compositor Dmytri Shostakovich (1906-1975). Com efeitos cênicos relativamente simples e com pouquíssimos diálogos o espetáculo tem grandiosidade épica e inflama os sentidos do público. Grandes achados cênicos são os painéis com projeções de Genealogia, a boneca gigante representando a tirânica Mãe Rússia e a guerra de pianos de lata quase ao final do segundo ato.

         AS IRMÃS MACALUSO foi o belo espetáculo vindo da Itália, dirigido por Emma Dante. Teatro dança de rara sensibilidade que mostra poeticamente e até com certa dose de humor temas como morte, luto e perdas. Elenco coeso. É lamentável que diante de tanta beleza alguém se preocupasse em escrever um artigo sobre o cuspe que eventualmente as atrizes dirigiram para quem estava na primeira fila do teatro. Assim caminha nossa crítica teatral!
 

         WOYZECK. O texto de Georg Büchner (1813-1837) que por sua vez já é fragmentado e inacabado serve de pretexto para o diretor ucraniano Andriy Zholdak criar uma longa e explosiva performance que leva as personagens Woyzeck e Maria para o espaço cósmico. Apesar de excessivo o espetáculo tem momentos significativos e a ênfase é na violência e na truculência dos militares, provável resquício dos tempos em que a Ucrânia pertencia à extinta União Soviética e também da delicada situação que o país vive atualmente.

         CANÇÂO DE MUITO LONGE é delicado trabalho vindo da Holanda que, assim como As Irmãs Macaluso, trata de assuntos como morte, luto e superação da perda. O texto de Simon Stephens, dirigido por Ivo van Hove tem interpretação contida e segura de Eelco Smits. Como “estreia mundial” no MITsp esperava-se espetáculo mais impactante e original.

         SENHORITA JULIA vem da Alemanha, com direção da inglesa Kate Mitchell. Colocando a empregada Cristina como a protagonista da peça, a encenadora torna a peça de Strindberg (1849-1912) menos misógina do que o autor a concebeu. É notável o sincronismo entre a ação dos atores, dos técnicos que fazem as filmagens, dos dois sonoplastas que executam os sons ao vivo e à vista do público e da violoncelista. Com exceção da luz que vem do exterior, todo o espetáculo tem como iluminação apenas as luzes das velas e dos candelabros. Tudo é propositalmente muito nórdico e gélido não despertando emoção nem nas mortes do pintassilgo e de Julia. O uso dos recursos cinematográficos é bastante eficiente e as cenas na tela remetem aos filmes de Ingmar Bergman e aos quadros do pintor Vermeer. Tudo muito bonito, mas sem o mínimo de emoção.

         STIFTERS DINGE (de Heiner Goebbels - Alemanha/Suíça) e ARQUIVO (Arkadi Zaides - Israel), cada um à sua maneira foram espetáculos de exceção. O primeiro por se tratar de uma instalação sem atores em cena (na verdade o ator está presente com sua voz narrando algumas partes do espetáculo) e o segundo por colocar um coreógrafo israelense diante de projeções realizadas por palestinos, interpretando com gestos e sons o que se passa em cena. Espetáculos áridos e instigantes, bem vindos numa mostra que necessita ter seu lado inovador no que se refere a trazer novas linguagens.

         “Muito barulho por (quase) nada” poderia ser o título deste item que trata dos dois espetáculos trazidos pelo grupo colombiano Maldita Vanidad dirigido por Jorge Hugo Marín. Depois da bem sucedida apresentação da trilogia Sobre Alguns Assuntos de Família no Mirada 2012 esperava-se muito destes novos trabalhos do grupo, mas parece que a fórmula se esgotou. Depois de sucessivas exigências de mudança dos locais de apresentação foi mostrado o apenas razoável e melodramático MORRER DE AMOR numa casa na Vila Madalena e o decepcionante MATANDO O TEMPO claramente inspirado em Festa de Famíla do dinamarquês Thomas Vinterberg. Bons atores atuando de forma hiper-realista necessitam de sólida dramaturgia para o bom resultado de espetáculo desta natureza e texto consistente foi exatamente o que faltou nas encenações dos colombianos.

         O Brasil foi muito bem representado pelos dois espetáculos de Christiane Jatahy JULIA e E SE ELAS FOSSEM PARA MOSCOU? que contêm dois aspectos enfatizados pela curadoria do evento: a visita a textos clássicos e o uso de linguagem cinematográfica na concepção dos mesmos.

        As atividades paralelas, tão importantes quanto os próprios espetáculos, envolveram profissionais de teatro e o público promovendo um intercâmbio produtivo e mais que necessário.

       Saldo mais que positivo da MItsp 2015. Já estamos aguardando a próxima!

15/03/2015



 
   
 
 
 
      

 

15/03/2015

 

 

domingo, 8 de março de 2015

CONSERTANDO FRANK



        Nem sempre a junção de bom texto, bom encenador e bom elenco resulta em sucesso de crítica e/ou de público. Para ficar em dois exemplos clássicos ocorridos nos palcos paulistanos cito a montagem de Vereda da Salvação de Jorge Andrade dirigida por Antunes Filho em 1964 (último espetáculo do TBC) que tinha no elenco nada menos que Raul Cortez, Cleyde Yáconis e Lelia Abramo e ainda a grandiosa encenação de Tom Paine (1970) de Paul Foster com direção de Ademar Guerra com numeroso e talentoso elenco liderado pela grande Myrian Muniz. Tenho certeza que este não será o destino deste Consertando Frank que estreou ontem no Mube Nova Cultural.

        Marco Antônio Pâmio indiscutivelmente um grande ator, vem se firmando como encenador e munido de bons autores (Pirandello e Tennessee Williams) e ótimos elencos emplacou dois sucessos no ano passado: Assim É (Se Lhe Parece) (prêmio APCA e indicação de prêmio Shell de direção) e Propriedades Condenadas (uma pequena joia que volta ao cartaz no Teatro Sérgio Cardoso no mês de abril).

        E eis que neste início de temporada de 2015 ele está de volta e acerta de novo, agora com  texto contemporâneo do autor norte americano Ken Hanes e com elenco primoroso formado por Chico Carvalho, Rubens Caribé e Henrique Schafer.

        O psicólogo Jonathan (Rubens Caribé) pede a  seu companheiro, o escritor Frank (Chico Carvalho) que consulte outro terapeuta, o Dr. Apsey (Henrique Schafer) que diz ter um método para a “cura gay”. O objetivo de Jonatha é desmascarar Apsey e convence seu parceiro propondo que ele escreva um artigo sobre o assunto. A solução dramatúrgica encontrada pelo autor, e muito bem traduzida cenicamente por Pâmio, coloca as três personagens permanentemente em cena durante os 90 minutos de duração de ação a qual vai colocando Frank cada vez mais nas mãos manipuladoras dos seus outros dois interlocutores. Situado entre dois fogos, nada resta a Frank do que sair emocionalmente queimado e ainda pedindo desculpas por todo esse imbróglio que não foi criado nem alimentado por ele. Resta-lhe um tênue grito de liberdade nos derradeiros minutos da peça.

        Tudo funciona nessa nova encenação de Pâmio: o cenário simples e funcional de Chris e Nilton Aizner, o discreto figurino de Naum Alves de Souza, a bonita iluminação do muito presente em vários espetáculos Fran Barros e a trilha sonora de Ricardo Severo.

        A direção contempla o trabalho dos atores imprimindo uma marcação rigorosa à movimentação dos mesmos sem, porém, tirar a espontaneidade da mesma.

        Rubens Caribé imprime humanidade ao hipócrita Jonathan e Henrique Shafer (que nos brindou há alguns anos com sua magnífica interpretação de O Porco) interpreta o aparentemente equilibrado Dr. Apsey com muita garra, mas o protagonista da peça é Frank e Chico Carvalho se aproveita disso valendo-se de todos seus recursos interpretativos para criar uma personagem que já lhe confere presença na lista das melhores atuações do ano.

        Consertando Frank é espetáculo muito digno que deve abranger todo tipo de público. Está em cartaz no Mube Nova Cultural às sextas e sábados às 21h30 e aos  domingos às 18h. até 26/04.

 

08/03/2015

 

sábado, 21 de fevereiro de 2015

ARMADILHA


 

        Soluções impactantes como a que Ira Levin (1929-2007) apresenta no final do primeiro ato desta peça estreada na Broadway em 1978 surgiram muito antes tanto no teatro, como, principalmente, no cinema com As Diabólicas (1955) e Com a Maldade na Alma (1964). A real originalidade do texto de Levin está em fazer uma peça dentro da peça, um engenhoso exercício de metalinguagem, onde o espectador presencia as personagens escrevendo a peça a que ele está assistindo. A peça tem uma rigorosa divisão em dois atos com três cenas em cada ato e é uma pena que na atual montagem não se faça um intervalo entre os atos, fato que reforçaria a ideia do autor.
 
Capa do programa da montagem da Broadway (1978), cuja ilustração também foi usada na capa do programa da montagem brasileira (1979)
 

        A peça foi montada em São Paulo em 1979 com direção de Jorge Takla, tendo Walmor Chagas e Paulo Castelli nos papéis principais e virou filme dirigido por Sidney Lumet em 1982. Depois de tantos anos conserva o sabor do suspense e das surpresas provocadas pelas reviravoltas na trama.

        A montagem de estreia da Cia. Goya, apesar da produção modesta, tem resultado bastante satisfatório. A direção de Susanne Walker mantém desde as primeiras cenas, o clima de suspense exigido pelo texto e propõe uma interpretação naturalista para os atores.

        A tradução do texto realizada por Jorge Minicelli acertadamente optou por diálogos coloquiais, mas ao meu modo de ver errou ao abrasileirar o nome das personagens, fato este que cria certo distanciamento, pois a ação da peça está longe de caráter brasileiro. A versão apresentada eliminou a figura do agente do dramaturgo Porter Milgrim concentrando o desfecho em apenas uma personagem, que não vou ser desmancha prazer e revelar quem é!

        Jorge Minicelli tem ótima presença cênica e compõe com elegância a personagem do frustrado dramaturgo Sidney; André Magalhães lhe é um ótimo contraponto e realiza com leveza as nuances da sua personagem (César, o dramaturgo jovem). Marília Persoli talvez exagere nos gestos de jovem sofisticada, mas desempenha a contento a esposa de Sidney. A personagem de Helga requer uma tônica não naturalista e ela é também responsável pelos momentos cômicos da ação. Lu Grillo, com figurinos que reforçam o não naturalismo, faz uma interpretação caricatural que destoa da montagem como um todo; além disso, em certos momentos ela esquece o sotaque espanhol requerido pela personagem. O melhor momento da atriz acontece na surpreendente cena 3 do 2º ato.

        A trilha sonora, item fundamental num espetáculo de suspense, revelou-se repetitiva e muito alta, tendo em certos momentos encoberto a fala dos atores.

        Talvez por se tratar da noite de reestreia, a iluminação teve alguns problemas, piscando durante toda a apresentação.

        Armadilha é ótimo entretenimento. “Altamente comercial”, como é afirmado várias vezes durante a representação. E o “comercial” neste caso não tem sentido pejorativo, mas indica que é um espetáculo que pode agradar dignamente a largo espectro de publico.

        Armadilha está em cartaz num amplo teatro no bairro da Vila Mariana com mais de 400 lugares e merece ter esses lugares totalmente ocupados durante toda a temporada.

        De 20/02 a 29/03 no Teatro João Caetano. Sextas e sábados às 21h e domingos às 19h. Ingressos: R$10,00 (meia: R$5,00).

 

21/02/2015

       

       

sábado, 14 de fevereiro de 2015

A VOLTA PARA CASA


 

        É uma boa surpresa este espetáculo que após curta temporada no MUBE no ano passado volta ao cartaz no Teatro Sergio Cardoso só até o dia 1º de março.

        O cruel e contundente texto do romeno Matéi Visniec no seu absurdo é irônico e engraçado e foi tratado dignamente na transposição cênica de Regina Duarte. São duas cenas curtas (menos de dez minutos cada) e a última um pouco mais longa que dá título à montagem. A originalidade de Visniec é tratar de assuntos escabrosos com humor e nesta cena passada dias após o término de uma guerra temos um general às voltas com grupos de cadáveres de soldados que disputam lugar na fila do desfile que os levará de volta para casa: “como traidor da pátria devo ficar na frente dos desertores; como morto por um tiro certeiro no coração sou um cadáver bonito e intacto, portanto, mereço o primeiro lugar na fila”; e por aí vai, cada um reivindicando o seu espaço. Cena muito engraçada, mas que revela todos os horrores das guerras com aqueles corpos mutilados clamando por dignidade pelo menos no cortejo que os levará de volta ao lar e daí para o cemitério. O numeroso elenco de quase 20 atores participa desta cena que é a que tem melhor rendimento.

        As duas primeiras cenas, ambas com dois atores, são muito boas, mas ficam soltas e a direção poderia ter amarrado as três cenas para dar maior unidade ao espetáculo que é muito curto e termina quando a adrenalina do público ainda está subindo (o que de certa maneira pode ser um elogio).

        O elenco é homogêneo e alcança bom rendimento tanto nos solos como nas cenas corais.

        Bastante louvável o gesto de Regina Duarte que poderia se acomodar em sua fama, mas se propõe a experimentar com um elenco jovem e desconhecido em um texto que nunca vai passar na TV Globo. Ela também assina os figurinos e o despojado e sugestivo cenário que se amplia do palco para as paredes da Sala Paschoal Carlos Magno.

        A VOLTA PARA CASA é espetáculo sério (mas, engraçado!) e necessário nestes dias de tanta belicosidade não só entre povos, mas até entre vizinhos. Em cartaz às sextas e sábados às 21h e aos domingos às 19h.

 

14/02/2015

  

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

CHICA BOA


Foto de Ligiane Braga
 

        Paulo Magalhães parece ter sido um ativo autor de peças teatrais na década de 1940. Segundo o periódico carioca Correio da Manhã, Magalhães estrearia nada menos que seis peças em 1944, entre elas Chica Boa que a Companhia de Procópio Ferreira apresentou em primeira mão no extinto Teatro Santana em São Paulo. Chica Boa fez longa carreira entre várias companhias tendo sido rebatizada de O Solar dos Urubus em 1946 pela Companhia Déa-Cazarré em referência às vestes pretas que a ditadora dona da casa Dona Engrácia obrigava os seus familiares usarem. Com a modernização do teatro a partir do final da década de 1950 a peça caiu no ostracismo e eis que volta ao cartaz nesta segunda década do século XXI pelas mãos de Fernando Neves que vem resgatando textos de circo-teatro da primeira metade do século passado.

        A trama de Chica Boa é simples utilizando-se de tipos característicos (apesar de abrir mão da ingênua e do galã) e tendo situações que se resolvem superficialmente num piscar de olhos; na sua ingenuidade o texto é divertido e tem como objetivo as gargalhadas do público.

        A encenação de Fernando Neves complementa o projeto Baú de Arethuzza que o grupo Os Fofos Encenam apresentou em 2013 e segue as mesmas características daquelas montagens. Aqui os componentes dos Fofos participam apenas na parte técnica deixando a interpretação para alguns dos participantes da Ocupação do Riso ao Choro na Funarte.

        Para este tipo de espetáculo além da perfeita composição dos tipos, é necessário timing preciso dos atores na interpretação e na movimentação (principalmente nas entradas e saídas de cena) fato que nem sempre ocorre na atual montagem, além do que a maioria do elenco não tem a idade adequada para a personagem que representa. Apesar disso o rendimento é bastante satisfatório com destaque para Nereu Afonso como Teodoro, Guto Togniazzolo como Liberato e Juliana Gontijo como Dona Engrácia. A mudança de atitudes de Engrácia ao final do espetáculo poderia ser mais impactante para provocar uma surpresa maior no público.

        A direção de Fernando Neves é ágil e precisa focando sua atenção da atuação e movimentação dos atores. A trilha sonora selecionada por Fernando Esteves é deliciosa e ilustra bastante bem as situações da peça.

        Chica Boa é um bom espetáculo para quem quer esquecer por algumas horas as perspectivas sombrias que circundam este país sem água, sem luz e sem direção.

        VIVA O TEATRO que nos permite esses breves momentos!

        A peça está em cartaz somente até 22 de fevereiro na Sala Carlos Miranda da Funarte de quinta a sábado às 19h e aos domingos às 18h. O ingresso é gratuito. Chegue cedo para garantir o seu!

11/02/2015

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

SALAMALEQUE


 
        Intolerância étnica, religiosa ou sexual; violência e mais de perto falta de luz e de água. Somos bombardeados no dia a dia com notícias negativas nos jornais e nas torneiras. Há um antídoto para tanta coisa ruim e está ao alcance de todo mundo (é gratuito), ali no mais que simpático e acolhedor espaço da Fernanda, o Instituto Capobianco: SALAMALEQUE.

        Salamaleque é um encontro (acho esse termo mais apropriado do que espetáculo) concebido por Valéria Arbex a partir de cartas trocadas entre seus avós Nadime e Nicolau, de entrevistas que ela fez e também de sua memória do convívio com familiares de origem árabe. Esse material foi costurado dramaturgicamente com muita sensibilidade por Alejandra Sampaio e Kiko Marques e dirigido por Denise Weinberg e Kiko Marques. O resultado é delicioso até para o paladar, pois a personagem Elizete, enquanto conta as histórias dos imigrantes árabes (que poderiam ser aquelas de qualquer imigrante que um dia por circunstâncias diversas e com “uma mão na frente e outra atrás” deixaram seus países de origem para vir “fazer a América”) vai preparando oferendas para os convidados (nós, o público) degustarem ao final do encontro.

        Valéria está bastante à vontade em cena (muito mais solta do que a primeira vez em que assisti ao espetáculo em julho de 2013) dançando as músicas árabes com desenvoltura e sensualidade, interagindo com os convidados e permitindo-se uma cena deliciosamente erótica quando se comunica com Marcos, a pessoa que ela contrata para traduzir termos das cartas escritos em árabe que se revelam íntimos e muito sensuais. Aliás, é ótimo o recurso dramatúrgico de haver essa figura de Marcos com quem a protagonista a princípio troca e-mails, depois se apaixona e acaba casando. Encontro tão cheio de boas energias só podia ter um final feliz.

        Elizete pega o vestido de noiva, pede licença para ir se vestir para o casamento e deixa os convidados à vontade para se deliciar com as iguarias árabes e nós transformamos aquele espaço numa fraternal celebração. Na verdade a celebração acontece durante todo o encontro, pois uma emoção muito bonita envolve a todos que ali estão presenciando as histórias de Elizete. Na casa lotada do último sábado havia muitas senhoras (em especial a esfuziante Dona Alice) de descendência árabe que deram um colorido especial à sessão participando e batendo palmas durante as danças.

        O belo cenário de Chris Aizner reproduz com muitos detalhes uma casa de origem árabe utilizando muitos objetos pertencentes a Valéria.

        Por último, mas não menos importante, louve-se o acolhimento do público realizado com muita competência e simpatia pelas sorridentes Carol Vidotti, Rosana Maris e Patrícia Gordo, está última com uma função que devia fazer escola nos grupos que fazem teatro: Produção de formação de público.

        O programa da peça, simples, bonito e preciso contém até um glossário dos termos árabes usados no espetáculo e nos dias hoje mais que nunca é preciso dizer: sallamu alaicum (a paz esteja convosco).

        Viva Valéria! Seu espetáculo é lindo!

 

        Salamaleque está em cartaz no Instituto Cultural Capobianco (Rua Álvaro de Carvalho, 97) aos sábados e domingos às 16h até 26 de abril. Os ingressos (apenas 40 lugares) devem ser retirados uma hora antes, mas é bom ligar para 3237-1187 ou 97499-4243 porque os mesmos estão muito disputados.

 

26/01/2015