segunda-feira, 21 de março de 2022

ANJO DE PEDRA

 


As mulheres das primeiras peças de Tennessee Williams são, em geral, reprimidas e com um passado obscuro e/ou infeliz. É assim com Amanda e Laura Wingfield em À Margem da Vida, com Blanche DuBois em Um Bonde Chamado Desejo (Stella nesta peça é uma exceção que confirma a regra) e é também com Alma Winemuller neste Anjo de Pedra.

Nas rubricas da peça o autor define Alma assim: “A sua voz e seus gestos são consequência de anos e anos de festinhas paroquianas. A sua postura é a de uma anfitriã de reitoria. Os que regulam em idade com ela a consideram esquisita, comicamente afetada, a ponto de os fazer rir. Ela cresceu em companhia de pessoas de muito mais idade. A sua verdadeira natureza ainda está oculta, mesmo dela própria.”, ou seja, Alma é aquela garota sem graça, muito tensa, que dá risadinhas nervosas e notadamente infeliz. Quem não conheceu uma mocinha assim na época do colégio?

         Sara Antunes incorpora essa repressão em seus braços, em seus ombros, na postura dos pés e, principalmente, em sua voz. Ela só irá explodir para uma nova vida a partir da belíssima cena em que troca o vestido abotoadinho e sem graça por algo mais esvoaçante que estava guardado no verdadeiro baú de sua liberdade. Cabe aqui um elogio aos figurinos de todas as personagens desenhados por Marichilene Artisevskis.

         Apesar de algumas adaptações, a montagem de Nelson Baskerville é bastante fiel ao texto de Williams. As personagens suprimidas de Dr. Buchaman, Gonzales, Rosemary e Vernon não fazem falta à trama e, no meu modo de ver, apesar da excelência com que Kiko Marques os diz, os sermões do Reverendo Winemuller ora introduzidos no original são muito longos e não acrescentam nada na definição desse personagem autoritário, machista e conservador que quis moldar a personalidade da sua filha Alma.

         Um ponto alto da montagem é a exibição de vídeos que comentam e acrescentam dados à ação. Só como exemplo, cito o momento em que John tenta tocar em Alma e ela se retrai, mas no filme as mãos do médico vão para partes mais íntimas da moça, o que na verdade é o seu desejo. A direção de imagem é mais um belo trabalho da dupla André Grynwask e Pri Argoud.

         É muito boa a solução da cena de Alma e John crianças com a reprodução de imagens do filme de Peter Glenville de 1961 e os atores em cena dublando as personagens infantis.

         A cenografia de Chris Aizner é bastante flexível e aberta à imaginação do público só se concretizando no esqueleto do corpo humano e na fonte com um anjo de pedra em estilo moderno, apesar da ação da peça se passar em 1916. Baskerville preenche de maneira engenhosa o espaço cênico com belas movimentações do elenco.

         Destaques para a iluminação de Wagner Freire e para a música original de Marcelo Pellegrini.

         Cacilda Becker (1921-1969) tinha 29 anos quando interpretou Alma em 1950, Natália Thimberg (1929-) tinha 31 anos em 1960 quando fez o mesmo papel. Sara Antunes está próxima dos 40, porém, não tenho dúvidas em afirmar que tem o physique du rôle mais próximo e apropriado para viver Alma e ela o faz com uma tocante intensidade, acrescentando mais este trabalho à sua significativa carreira.

         Ricardo Gelli interpreta John Buchaman de forma bastante viril, fazendo valer a rubrica que reproduzo a seguir “...é um tipo fogoso, intensa e agitadamente vivo em meio a uma sociedade estagnada ... possui aquele ar ousado e fulgurante de um herói épico”. A cena em que Rosa tira a sua camisa remete àquela emblemática de Stanley (Marlon Brando) e Stella (Kim Hunter) na escada no filme Um Bonde Chamado Desejo (1951).

         Kiko Marques empresta dignidade ao autoritário Reverendo Winemuller e Chris Couto dá um toque de humor à cena com sua insana e perversa Sra. Winemuller. O toque de leveza fica por conta de Luiza Porto com sua graciosa Nellie.

         A austeridade da Sra. Basset fica por conta de Selma Luchesi e a fogosidade de Rosa Gonzales está nas mãos de Carolina Borelli. Thomas Huszar interpreta três personagens Dusty, Roger Doremus e Archie Kramer.

         Duas curiosidades sobre a primeira montagem de Anjo de Pedra no Teatro Brasileiro de Comédia em 1950 dirigida por Luciano Salce: Sérgio Cardoso interpretava o pequeno papel do caixeiro viajante Archie Kramer que só aparece na cena final e a saudosa Cleyde Yaconis estreou no teatro substituindo Nydia Licia no papel de Rosa Gonzales (quem me relembrou deste fato foi a querida Sara Antunes).

         A presente montagem de Anjo de Pedra está recheada de amor, de afeto e de respeito pelas mulheres e pelo ser humano de maneira geral e como tal merece ser prestigiada e assistida.

         Em cartaz no Tucarena até 15/05 às sextas e sábados às 21h e aos domingos às 18h.

         21/03/2022

 

        

 

 

 

 

 

 

 

 

2 comentários:

  1. Querido Cetra, eu tbm fiz essa montagem em 2011. Fui a primeira atriz negra a fazer o papel de Alma Winemuller. Um dia falamos mais sobre isso se quiser, O saudoso João Acaiabe fazia meu pai e eu tinha um elenco muito bacana tbm. Pena que vc não tenha visto. Ia adorar saber sua opinião. Um beijo.

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