O
cartaz dessa peça dá a entender que se trata de mais uma peça gay como tantas outras
que estiveram (ou ainda estão) em cartaz nos palcos paulistanos nos últimos
meses (Brokeback Mountain, Marginal Genet, Romeu e Romeu, Homem Que É Homem Não
Chora, Meu Garoto, Tenente Seblon), mas o enfoque aqui é bastante diverso.
A
dramaturgia de Arthur Pires coloca dois homens em um quarto de motel em uma
situação relativamente banal sem conflitos onde o mais velho, de fachada hetero
e pai de família, se encontra com um experiente garoto programa para uma tarde
de sexo efêmero sem maiores consequências.
Por recurso narrativo
presente na teoria do drama (“coup de théâtre”) o autor introduz um conflito na
segunda parte da peça, que irá alimenta-la até o fim da mesma. Por motivos
óbvios “anti-spoiler”, não cabe indicar aqui qual é esse conflito, bastando
escrever que ele altera por completo a relação dos dois homens levando
inclusive a mudanças de rumo em suas vidas para além do quarto 2107.
A
montagem de Rodrigo Ferraz conduz essa trama discretamente com foco nas
interpretações de Alexandre Acquiste (o homem) e Bruno Gadiol (o garoto de
programa). Os atores respondem com dignidade às questões abordadas pela peça em
interpretação naturalista que jamais envereda para o melodrama.
As cenas de sexo são
bem resolvidas sem jamais resvalar para a nudez explícita, o erótico apelativo
e o mau gosto, algo muito comum nesse tipo de espetáculo.
O toque feminino de
Kyra Piscitelli na assistência da direção com certeza colaborou para a
elegância e a discrição do resultado final.
A palavra digna pode
muito bem ser utilizada para adjetivar essa montagem em cartaz no Espaço
Parlapatões.
26/05/2026
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