terça-feira, 26 de maio de 2026

QUARTO 2107 – A NOITE QUE O SEGREDO BATEU À PORTA

 

       O cartaz dessa peça dá a entender que se trata de mais uma peça gay como tantas outras que estiveram (ou ainda estão) em cartaz nos palcos paulistanos nos últimos meses (Brokeback Mountain, Marginal Genet, Romeu e Romeu, Homem Que É Homem Não Chora, Meu Garoto, Tenente Seblon), mas o enfoque aqui é bastante diverso.

       A dramaturgia de Arthur Pires coloca dois homens em um quarto de motel em uma situação relativamente banal sem conflitos onde o mais velho, de fachada hetero e pai de família, se encontra com um experiente garoto programa para uma tarde de sexo efêmero sem maiores consequências.

Por recurso narrativo presente na teoria do drama (“coup de théâtre”) o autor introduz um conflito na segunda parte da peça, que irá alimenta-la até o fim da mesma. Por motivos óbvios “anti-spoiler”, não cabe indicar aqui qual é esse conflito, bastando escrever que ele altera por completo a relação dos dois homens levando inclusive a mudanças de rumo em suas vidas para além do quarto 2107.

       A montagem de Rodrigo Ferraz conduz essa trama discretamente com foco nas interpretações de Alexandre Acquiste (o homem) e Bruno Gadiol (o garoto de programa). Os atores respondem com dignidade às questões abordadas pela peça em interpretação naturalista que jamais envereda para o melodrama.

As cenas de sexo são bem resolvidas sem jamais resvalar para a nudez explícita, o erótico apelativo e o mau gosto, algo muito comum nesse tipo de espetáculo.

O toque feminino de Kyra Piscitelli na assistência da direção com certeza colaborou para a elegância e a discrição do resultado final.

A palavra digna pode muito bem ser utilizada para adjetivar essa montagem em cartaz no Espaço Parlapatões.

 

26/05/2026

      

 

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