sexta-feira, 17 de maio de 2019

BOCA DE OURO



        Nelson Rodrigues é o autor brasileiro mais montado em São Paulo e, talvez, no Brasil. Apesar de ter escrito apenas 17 peças, elas são constantemente remontadas e reinventadas sempre com grande sucesso, pois se tornaram clássicas em sua abrangência humana que é atemporal.
        Classificada como tragédia carioca, Boca de Ouro junto com A Falecida, é para mim uma das dramaturgias mais perfeitas do autor: diálogos fluentes, desenvolvimento perfeito da trama e final impactante mesmo para quem conhece a obra.
        Já visitada por José Celso Martínez Corrêa em 1999 e por Gabriel Villela em 2017 surge agora na versão do Grupo Oficcina Multimédia de Minas Gerais sob a direção de Ione de Medeiros.
        A encenação deste Boca de Ouro é uma verdadeira caixa de surpresas e eu tenho uma sugestão para aqueles que pretendem assistir a este ótimo espetáculo: não se informe muito sobre ele, nem leia o programa antes de vê-lo e assim aquelas dúvidas sobre quem faz qual personagem e como serão as soluções empregadas para as mudanças de cena serão reveladas de maneira bombástica e surpreendente somente durante o momento em que se está vendo a apresentação.


        O caso de Dona Guigui é emblemático para mim, pois se trata de um dos personagens de Nelson Rodrigues que me é mais caro. A Guigui de Odete Lara com seu vestido branco com bolas pretas no filme de Nelson Pereira do Santos (1963) é aquela dos meus sonhos. No teatro tivemos excelentes Guiguis como Sylvia Prado na montagem do Oficina e Lavínia Pannunzio na recente encenação de Villela. Era natural que eu estivesse com muita expectativa no momento em que Caveirinha bate à porta e Agenor atende e chama pela mulher. Quem surge como Guigui com um leque na mão? A tentação é grande, mas fiel ao que escrevi acima não serei um desmancha prazer. Vá ver e não se surpreenda se for capaz!


        Todo o elenco tem perfeito domínio de cena e incorpora com exatidão em suas interpretações o universo suburbano carioca retratado pelo dramaturgo. Consegui com um dos atores a distribuição dos personagens, mas pelo já escrito não revelarei aqui, mas não há como não destacar as interpretações de Jonnatha Horta Fortes, Henrique Mourão, Gustavo Sousa e Victor Hugo Barros.


        A diretora Ione de Medeiros assina também o interessante cenário que servirá para os vários ambientes onde acontecem as ações e o delicioso figurino que remete tanto ao subúrbio como ao universo pop, bastante lembrado durante a apresentação.
        A trilha sonora de Francisco Cesar cria o ambiente do espetáculo desde o momento em que um primeiro som de percussão invade o teatro antes dos atores entrarem em cena, assim como a significativa iluminação de Bruno Cerezoli.
        Você que não está disposto a ver este espetáculo por já ter assistido a vários Boca de Ouro ou porque não conhece o grupo ou ainda porque o SESC Santo Amaro é longe, mude sua atitude e vá! Garanto que não vai se arrepender.

        BOCA DE OURO está em cartaz no SESC Santo Amaro até 09/06 de quinta a sábado às 21h e domingo às 18h.

        16/05/2019

        OBS: O conteúdo desta matéria pediu que ela fosse escrita em tom coloquial.

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