sexta-feira, 31 de julho de 2026

SERMÃO DE SANTO ANTÔNIO AOS PEIXES

 


- AH! COMO É BONITA A LÍNGUA PORTUGUESA!

Essa foi a minha reação após ouvir o texto do Padre Antônio Vieira (1608-1697) dito por Márcio Vito e Moacir Chaves.

Para ouvidos tão acostumados com a linguagem coloquial do dia a dia comendo erres e esses e cheia de imperfeições, chega a ser surpresa e mesmo uma descoberta ouvir o português castiço do Padre Vieira nas vozes desses dois intérpretes.

Em um palco quase nu Márcio e Moacir se revezam na interpretação desse sermão que denuncia o tratamento dado aos povos indígenas pelos colonizadores portugueses. Apesar de seus quase quatro séculos de existência o tema do sermão, infelizmente, continua atual. As falas são permeadas por música executada ao vivo por Gustavo Corsi.

Moacir Chaves é velho conhecido de nossos palcos como diretor de mais de uma dezena de espetáculos que aqui chegaram (“Sermão da Quarta Feira de Cinzas”, também de Padre Vieira; “Bugiaria”; “Utopia” e “A Lua Vem da Ásia” entre outros), mas é a primeira vez que surge como ator e o faz com muita espontaneidade e talento estabelecendo simpático contato com o público.

Márcio Vito já havia mostrado seu talento no ano passado com o solo “Clautrofobia” e o reforça agora contracenando com Moacir nessa pequena joia em cartaz na cidade.

Atuações e dicções impecáveis fazem realmente o público se surpreender com a beleza da nossa língua. Só por isso já teria valido a pena assistir a esse espetáculo, mas o texto do Padre Vieira completa o prazer. 

SERMÃO DE SANTO ANTÔNIO AOS PEIXES está em cartaz no SESC Pinheiros até 08/08. Quinta a sábado, 20h30. Na sexta também às 16h. 

31/07/2026

terça-feira, 28 de julho de 2026

NO ESCURINHO DO CINEMA

 

        Indo ao teatro de quatro a cinco vezes por semana tem me sobrado pouco tempo para ir ao cinema, arte que gosto tanto quanto o teatro.

        Aproveitei o início desta semana para pôr alguns filmes em dia.

        Na segunda feira criei coragem para descer a montanha que vai da Avenida Paulista até o CineSesc: a descida íngreme e a calçada irregular são verdadeiros desafios para um portador de bengala.

        A sala de espera do CineSesc está com uma pequena e bela exposição sobre os cinemas de rua de São Paulo e isso me fez lembrar que esse espaço já surgiu como cinema de arte em 1969 com o nome de Cine Orly e exibindo na estreia nada mais, nada menos que “Eu Te Amo, Eu Te Amo” (1968) de Alain Resnais.


Em 1975 mudou o nome para Cinema Um e em 21/09/1979 foi adquirido pelo SESC passando a chamar-se CineSesc.

A exposição mostra um pouco do que foi a nossa Cinelândia onde os cinemas de rua reinavam absolutos com cartazes gigantescos dos filmes em cartaz.

Assisti a dois filmes:

- O CONVITE (2026), direção de Olivia Wilde. Os dois primeiros terços do filme são muito bons levando a crer que teremos uma comédia amarga ao gosto de Edward Albee, mas depois da tentativa de troca de casais o filme começa a explicar tudo bem ao modo do cinema norte americano e tem um final feliz e conservador para não desagradar as “famílias”.

E a Clarice sempre presente! 

        - ECOS DO TEATRO EXPERIMENTAL DO NEGRO (2026), direção de Daniel Solá Santiago. Fui esperando um documentário sobre o lendário TEN criado por Abdias Nascimento, mas como o título “Ecos” anuncia, trata-se mais da influência que os grupos negros contemporâneos tiveram do TEN. É um belo filme e tem depoimentos preciosos de Ruth de Souza, Lea Garcia, Milton Gonçalves e João Acaiabe, entre outros.

        Na terça feira fui ao oftalmologista no Shopping Santa Cruz e depois de comer um delicioso cheeseburger na Achapa e saborear um enorme Chocochapa (sorvete em taça que ressuscita o Chocolamour da saudosa Sorveteria Alaska) resolvi enfrentar uma sessão de cinema.

        - A ODISSEIA (2026), direção de Christopher Nolan.

        Sentei numa poltrona D-BOX que provoca vibrações e trepidações de acordo com o que acontece no filme.

        O filme é bem realizado, tem um bom elenco e procura mostrar os incidentes relatados por Homero na saga de Ulisses na tentativa de volta a Ítaca e à sua amada Penélope. Como todo filme norte americano ele não deixa de sucumbir a muitas cenas de luta e violência e a um final feliz.

 Fazer o quê??

 

28/07/2026

domingo, 26 de julho de 2026

IDIOTA CONVICTO

 

Hugo Possolo é a entidade palhaça do teatro paulistano atual.

Rio “a bandeiras despregadas” com ele desde o início dos anos 1990 quando se formou os Parlapatões. Quem não se lembra de “Sardanapalo” (1994) e “ppp@WLLMSHKSPR.br” (1998)? São também inesquecíveis seus dois solos “Prego na Testa” (2005) e “Eu Cão Eu” (2012).

Ei-lo de volta com um saboroso solo que está sendo apresentado apenas aos sábados às 22h no Espaço Parlapatões.

Dramaturgas (Ana Saggese, Maíra Dvorek e Michelle Ferreira) e dramaturgos (Luís Alberto de Abreu e Sérgio Roveri) escreveram pequenos textos para Hugo que os costurou no roteiro de “Idiota Convicto” e o resultado tem a cara do “costureiro”!

Hugo tem aquela característica dos bons palhaços ao nos fazer rir e depois refletir sobre as misérias humanas.

- Seria cômico, se não fosse trágico, mas já que estamos aqui, vamos rir.

Esse parece ser o pensamento das várias personagens que compõem “Idiota Convicto”.

Aos quase 64 anos de idade e 45 de carreira, Hugo Possolo continua mostrando seu tão bem-vindo humor e talento ao público da cidade.

Longa vida à nossa entidade palhaça!

 

26/07/2026

sábado, 25 de julho de 2026

ENTRE IRMÃOS

 

Dionísio abençoou o aconchegante Espaço Convivência do Teatro Vivo iluminando o curador André Acioli para trazer apenas excelentes espetáculos para o local.

Ali já foi a sala de espera de um consultório médico (“Um Pequeno Incidente”), a sala dos professores de uma escola (“Oleanna”) e agora é o salão de um velório em “Entre Irmãos”. Todas elas com um mínimo ou nenhum cenário fazendo a magia da imaginação do espectador se manifestar de uma maneira que só o teatro permite. As três peças também são apenas com dois intérpretes.

Ao adentrar o velório uma visitante desatenta danificou parte do esquife que foi imediatamente restaurado pela organização da casa. Como se vê, o público participa do velório do pai de dois irmãos que não se encontravam há mais de vinte anos. Enquanto um deles ficou na família, se anulando profissionalmente para ajudar o pai na condução de um restaurante, o outro abandonou a todos após a morte da mãe tornando-se um fotógrafo de certa relevância. O encontro traz de volta muitos rancores e um acerto de contas doloroso para ambas as partes. Certas revelações mudam o caminho da trama em recurso bastante melodramático, no entanto a direção precisa de Marcos Damigo e, principalmente, a excelência dos intérpretes Fernando Pavão e Otávio Martins nunca fazem a ação resvalar para o melodrama, mantendo a dignidade do drama enfrentado pelos dois irmãos.

Qualquer pessoa que já esteve em um velório sabe que seu olhar passeia pelo caixão com o falecido, pelos familiares e pelas outras pessoas ali presentes e é exatamente isso que acontece nesta montagem: olhamos para o caixão com o cadáver (outra vez a magia da imaginação), para o embate entre os dois irmãos e para a reação das outras pessoas presentes na plateia (opa, no velório!) que estão sentadas em nossa frente.

Otávio Martins tem uma brilhante composição como o irmão mais velho que permaneceu com o pai, personagem tensa e estressada que mantém o corpo contraído durante toda a ação e os braços em torno do peito parecendo compensar a carência de toda uma vida. A atuação de Otávio explicita todos esses sentimentos. Já Fernando Pavão tem uma atuação mais interiorizada condizente com a personagem do irmão caçula que teve outro tipo de vida depois que abandonou a família. Duas excelentes interpretações que se complementam e envolvem o público presente.

Não assisti à montagem original concebida para palco italiano, mas acredito que a peça ganhou muito mais nesta versão onde o público participa do velório.

A trilha sonora de Ricardo Severo e o desenho de luz de Beto de Faria comentam e complementam a ação da peça. É muita bela a iluminação da cena em que um início de agressão termina em abraço emocionado dos dois irmãos.

Belo, digno e emocionante ENTRE IRMÃOS é um trabalho que precisa ser visto.

Em cartaz de 24/07 a 13/09. Sexta e sábado, 20h e domingo, 18h no Espaço Convivência do Teatro Vivo.

 

25/07/2026

quinta-feira, 23 de julho de 2026

MANIFESTO

 

“Por tão poucos terem tanto, é que tantos têm tão pouco”

(Eduardo Marinho) 

        Desconheço como foi que Lee Taylor conheceu Eduardo Marinho, mas vejo como foi importante ele ter trazido a público, por meio deste espetáculo, a vivência e os pensamentos desse homem de aparência simples e com um conteúdo humano imenso e rico.

Lee fez a organização dramatúrgica das falas e escritas de Marinho, mas o mérito do rico conteúdo do texto  é totalmente creditado a Marinho, artista de rua, escritor e ativista social, também chamado de “filósofo de rua” vindo de uma família conservadora de classe média que, como a maioria dos jovens, obedeceu o pai militar na escolha do seu futuro, tentando carreira militar, partindo depois para uma formação universitária cursando Direito e finalmente  rompendo com tudo e com todos de maneira corajosa indo viver na rua em busca de um sentido para sua vida e de uma sinceridade que ele não encontrava no mundo burguês. A saga de Marinho é rica em detalhes e suas observações sobre o mundo e a sociedade são profundas e importantes, haja vista a frase que serve de epígrafe para esta matéria.

Tal qual Charlie Chaplin, Lee Taylor tem total domínio corporal/facial em cena, com a vantagem de que ele fala e tem belíssima e possante voz. É um verdadeiro privilégio ver Lee tão de perto incorporando em cena a figura de Marinho.

Dirigida por Georgette Fadel com codireção do próprio Lee, a encenação tem resoluções cênicas simples, mas muito belas e criativas como o uso da luz e das sombras e aquelas que acontecem na capota de Kombi presente em cena, carinhosamente batizada de Celestina por Marinho.

As palavras e os desenhos de Marinho que complementam o texto dito pela personagem, vão surgindo aos poucos em cartazes que vão sendo pendurados em varais.

Soluções aparentemente óbvias, mas que necessitam de muita criatividade para surgirem e quando aparecem vem a reação “Puxa! Como não pensei nisso antes?”

MANIFESTO é outro monólogo masculino surgido numa temporada repleto deles, mas tem destaque especial pela riqueza do texto e pela belíssima interpretação de Lee Taylor que colhe mais um sucesso em sua sólida carreira teatral.

Na noite de 22/07/2026 Eduardo Marinho estava presente sendo abraçado efusivamente por um emocionado Lee Taylor ao final da apresentação sob os aplausos do público que também não escondia sua emoção após tamanha demonstração de solidariedade e humanidade.

COMO ESTAMOS PRECISANDO DISSO!

O espetáculo é apresentado no pátio da unidade da Funarte de quinta a sábado às 19h30 e domingos às 19h.

E essa preciosidade tem ingressos gratuitos!

23/07/2026

 

segunda-feira, 20 de julho de 2026

INDICADOS DO PRIMEIRO SEMESTRE 2026 APCA - TEATRO ADULTO

 


Em reunião realizada no dia 20 de julho de 2026 na SP Escola de Teatro foram feitas as indicações do primeiro semestre de 2026 para os melhores do ano em teatro adulto, segundo a APCA. 

ATOR:

- Edu Moscovis O motociclista no Globo da Morte

- Luciano Gatti – Nós, os Justos

- Velson D’Souza - Oleanna

ATRIZ:

- Georgette Fadel ´Gota D’Água - No Tempo

- Juliana Linhares – As Centenárias

- Milla Fernandez – Tip 

DRAMATURGIA;

- Kiko Rieser – Nós, os Justos

- Leonardo Netto – O Motociclista no Globo da Morte

- Rafael Primot – Habitat 

DIREÇÃO:

- José Roberto Jardim – O Retorno

- Luís Carlos Vasconcellos – As Centenárias

- Rafael Gomes – Hamlet – Sonhos Que Virão 

ESPETÁCULO:

- Anywhere

- Hamlet – Sonhos Que Virão

- Hip Hop Hamlet 

ARQUITETURA CÊNICA

Fica criada esta sexta categoria que visa contemplar as “pessoas invisíveis” que também fazem parte do espetáculo. A cada semestre serão indicados quatro profissionais, num total de oito ao ano, entre os quais será escolhido o premiado com o troféu APCA: 

- Aline Santini - Iluminação de “O Retorno”

- J.C. Serroni – Cenografia de “Medea”

- Claudio Tovar – Figurino de “Fafá de Belém, o Musical”

- Chico Cesar e Newton Moreno– Trilha sonora de “As Centenárias” 

Votaram: a crítica Kyra Piscitelli e os críticos Bob Souza, Edgar Olímpio de Souza, Evaristo Martins de Azevedo, José Cetra Filho e Vinicio Angelici.

 

20/07/2026

 

 

BRASIL EM REVISTA

 

O CPC-UMES coerente com seus valores e ideais apresenta este trabalho que busca mostrar os acontecimentos neste “país tropical, abençoado por Deus”, desde a chegada de Pedro Alvares Cabral em 1500 até os dias de hoje onde um escárnio, filho de outro escárnio, procura chegar ao poder. O programa da peça informa que não se trata nem da versão dos vencedores nem dos vencidos, mas aquela dos lutadores.

A dramaturgia assinada por Marcus Vinicius de Andrade, Valério Benfica e Rebeca Braia privilegia figuras que aparecem de forma secundária na história oficial. Em rápidos flashes a história é contada nas duas horas de duração do espetáculo com uma clara denúncia aos regimes totalitários.

Alexandre Kavanji coloca 15 intérpretes e quatro músicos em cena para contar a história criada pelos dramaturgos. A meu ver, há certo cuidado em não encarar a peça como uma verdadeira revista nos moldes daquelas gloriosas da Praça Tiradentes nos anos 1950/1960; o acréscimo de um certo deboche faria bem à encenação.

Sendo proveniente de diversas partes/cursos/oficinas é natural que o elenco seja irregular, mas isso absolutamente não compromete o coletivo, que é o grande trunfo do espetáculo. Sente-se a garra e a energia do grupo ao defender os objetivos da montagem.

 Se há um destaque a fazer é para Alexandre Krug que brilha como o mestre de cerimônias que narra toda a evolução da história, mas é importante lembrar o nome de cada pessoa do elenco Adriana Coppi, André Barros, Arthur Lopez, Aylla Ferreira, Camila Sipriano, Catarina Neves, João Ribeiro, Junior Fernandes, Marcio Ribeiro, Ricardo Mancini, Nathiele, Rebeca Braia, Telma Dias, Valentina Macedo, Vitória Silva e dos músicos Adilson Camarão, André Tinoco, Léo Nascimento e Lisiane Martins que merecem os calorosos aplausos do público ao final desse espetáculo que nos faz acreditar que o Brasil ainda tem jeito.


A peça está em cartaz no Teatro Denoy de Oliveira até 12 de setembro com sessões às quintas e sextas às 19h e aos sábados às 20h. Ingressos gratuitos. 

18/07/2026

 

sábado, 18 de julho de 2026

RASGA CORAÇÃO

 

Dois gênios se encontram em um cantinho qualquer do universo brasileiro:


ZÉ CELSO (ZC): Você viu, Villa, o que meu grupo fez com suas músicas?

VILLA LOBOS (VL): Vi e adorei, Zé! A direção musical do Felipe Botelho é linda, pondo aquela turma pra cantar lindamente e as partes corais são realmente de rasgar o coração.

ZC: Da maneira mais antropofágica possível eles deglutiram a monumentalidade de sua obra e a devolvem com uma banda de apenas nove músicos e dezesseis cantoras/cantores.

VL: E o resultado é de uma beleza incrível. Adorei, Zé Celso. Aquelas garotas (voz e cello) que interpretam a cantilena da Bachiana Nº5 me arrepiaram os cabelos e a banda muito à base de percussão é estimulante.  O que dizer então das peças corais? Nossa, redescobri ali as minhas músicas.

ZC: Quem idealizou esse trabalho foi o meu companheiro Marcelo Drummond junto com o músico Felipe Botelho e eles puseram o Roderick Himeros, velho de guerra, para dirigir. E tem câmera captando ao vivo imagens da cena, bem ao estilo do Oficina.

VL: Nas imagens tem até fotos minhas!! E  que dizer da abertura com música de “Floresta do Amazonas”? E aquele final majestoso com a parte coral do Choro Nº 10? RASGA CORAÇÂO!!

ZC: Que bom que você gostou, Villa. Acho que o público também vai gostar!

VL: Sem dúvida, tanto aqueles conhecedores e admiradores da música clássica, como aqueles que nunca tinham ouvido falar do Villa Lobos.

ZC: Que bom ouvir isso, Villa!

VL: Cumprimente o seu pessoal por esse belíssimo trabalho.

ZC: Ah!! Bem que eu o faria ... se pudesse!!

Gui Calzavara
Sylvia Prado
 

Essa maravilha teatral/musical está em cartaz no Teatro Oficina tem apenas mais três apresentações programadas. NÃO PERCA e saia alegre e energizado como eu saí. 

18/07/2026

sexta-feira, 17 de julho de 2026

TEATRO RUTH ESCOBAR 2026/VINDOS DE LONGE

 

 

1-  O ESPAÇO

Muito já escrevi sobre a longa agonia pela qual vinha passando o Teatro Ruth Escobar desde 1997 quando passou para a administração da APETESP. Foram 33 anos onde o local, de tão louvável passado não só artístico, mas também de resistência, foi decaindo não só na parte estrutural, mas principalmente na programação artística.

Depois de ser um espectador muito presente, poucas vezes lá voltei, pois os espetáculos apresentados não me atraiam, fato que pode ser comprovado apenas por alguns títulos:  Assalto Alto/Cura Ele Cura Ela/Quem Não Vê Cara, Não Vê Furacão/O Dia Em que Eu Comi a Pomba Gira/De Mala e Cuia no Trem do Riso/Homens no Divã/Casal TPM/Casal TPM 2-A Música da Nossa Vida/TPM-Terapia Para Mulheres/O Amante do Meu Marido/Nua na Plateia/Uma Família Muito Doida.

E nessas poucas vezes que lá estive, senti uma grande tristeza em ver o espaço semiabandonado, em clima de decadência com cartazes de “Engolindo Sapo Para Um Dia Comer Perereca” anunciando uma das peças em cartaz. Impossível não lembrar melancolicamente de Ruth Escobar que tantas coisas importantes realizou ali.

Corta para julho de 2026. Vou ao Teatro Ruth Escobar em boa parte remodelado para assistir ao musical “Vindos de Longe”. Surpreso com a nova cara do espaço, agora bastante iluminado e com o andar superior já reformado e o alegre burburinho do público tomando uma taça de vinho enquanto aguarda o início do espetáculo na nova e modernizada Sala Dina Sfat. Senti uma alegria imensa no coração em testemunhar o Ruth Escobar, tal qual uma Fênix, renascer das cinzas.

O corredor para entrada na Sala Dina Sfat tem um imenso painel pintado em homenagem a Ruth Escobar e um vitral externo mostra reprodução de uma cena do icônico “O Balcão”, montagem histórica de Victor Garcia apresentada em 1970/1971 naquele local.

De mãos dadas com Ruth

O acolhimento é outro ponto forte do novo Teatro Ruth Escobar. Sorrisos e simpatias da Luciana na bilheteria, da Lais da produção e do guerreiro (tal qual Ruth!) Vinicius Munhoz, responsável pela revitalização do espaço com reformas já previstas das outras duas salas (Gil Vicente e Myrian Muniz), além de implantação de floricultura e livraria no salão de espera. Esteja onde estiver, Ruth deve estar voltando a sorrir com o novo destino do teatro que leva o seu nome.

        2 – VINDOS DE LONGE 

E chegou a hora de assistir ao espetáculo na Sala Dina Sfat com lindas poltronas vermelhas, chão restaurado e um palco aparentando maior do que já era.

O musical é um libelo da solidariedade e da humanidade ainda encontrada em alguns seres humanos. Como se vê, tema muito oportuno para reinaugurar o Teatro Ruth Escobar.

Demonstrando mais uma vez sua versatilidade e seu talento Rafael Gomes dirige a montagem com mão de mestre em um palco nu onde o cenário é definido pelo belíssimo desenho de luz de Wagner Antônio, que corretamente também assina a cenografia.

O elenco afiadíssimo interpreta, canta e dança a coreografia de Fabricio Licursi. Não há primeiras estrelas e linha de coro: ali todos tem seu momento de destaque desde o famoso Saulo Vasconcelos até uma atriz ou ator menos experiente. São doze intérpretes que brilham em cena. Não há protagonismo, mas vale lembrar as presenças sempre iluminadas de Nábia Villela, Bruno Marchi e Davi Novaes.

A peça tem dramaturgia consistente dos canadenses Irene Sankoff e Davis Hein, algo raro nos últimos musicais ditos “da Broadway” que por aqui aportaram. A versão brasileira, bastante coloquial e gostosa de ouvir, é de Mariana Elisabetsky.

Muita emoção para uma única noite.

3 – CONCLUSÃO

 

Vinicius Munhoz, fundador da VME, com apenas 32 anos, é o grande responsável pela remodelação do espaço. Tem contrato por dez anos, para possível renovação por mais dez anos. Seu entusiasmo é contagiante e dele se espera uma curadoria digna desse teatro tão bonito e tão importante para a cidade de São Paulo.

Obrigado, Vinicius! 

17/07/2026

 

 

 

 

 

sexta-feira, 10 de julho de 2026

VIVA! VIDA!

 

“A terra é um bote salva-vidas no meio do universo –

e nós somos a tripulação”

(Christine Koch, astronauta) 

        As florestas levaram bilhões de anos para terem condições de se formar na terra e o homem predador está em vias de acabar com elas em menos de cem anos!

        Essa dolorosa realidade é o mote/denúncia do espetáculo “Viva! Vida!” escrito por Estevão Ciavatta Pantoja. Escrita bastante poética, resvalando às vezes para certa ingenuidade que, porém, não a desmerece. O texto é veículo para a interpretação de Regina Casé vestida por Cláudia Kopke com um vistoso figurino branco que remete a uma ave amazônica.

        Pantoja e Daniela Thomas dirigem o espetáculo que tem muito de sua beleza no cenário de Daniela e no belíssimo vídeo-cenário criado por “Radiográfico”, complementados pela iluminação de Beto Bruel e a trilha sonora de Amaro Freitas, que, apesar de bela, na sessão de estreia estava muito alta, cobrindo muitas vezes a voz da atriz.

        Tudo isso em função do trabalho de Regina Casé, em muito bem-vindo retorno aos palcos paulistanos. Regina brilha na hora e meia que ocupa o imenso palco do Teatro Sérgio Cardoso, fazendo o seu discurso em prol da natureza e interagindo muito à vontade com o público, sempre com um delicioso toque de humor.

        “Viva! Vida!”  levanta pontos importantes sobre como o homem está destruindo a natureza, seu bem maior, e é importante que seja assistido pelos jovens que talvez possam se tornar os futuros guardiões do nosso “planetinha”, como dizia Vinicius de Moraes.

        Salvemos nosso bote salva-vidas!

        VIVA1 VIDA está em cartaz no Teatro Sérgio Cardoso até 02 de agosto de quinta a sábado às 20h e domingo às 17h.

        10/07/2026

 

       

terça-feira, 7 de julho de 2026

ÉDIPO

 

Foto de Ronaldo Gutierrez

Robert Icke (29/11/1986) é um fenômeno do teatro britânico: com quarenta anos não completos é autor e diretor de uma dezena de peças de sucesso, em sua maioria adaptações (eu chamaria de recriações) de grandes clássicos: “Oresteia” de Ésquilo, “Tio Vânia” de Tchekhov, “Mary Stuart” de Schiller, “O Pato Selvagem” de Ibsen, “Édipo Rei” de Sófocles foram algumas obras que passaram pelo crivo adaptador/recriador de Icke.

No momento, uma recriação de “Romeu e Julieta” de Shakespeare está em cartaz em Londres e em São Paulo temos a estreia de “Édipo” pelas mãos do “Círculo de Atores”, grupo responsável pela montagem de grandes obras do teatro universal: Bernard Shaw, Henrik Ibsen e o próprio Icke (A Médica) fazem parte de seu repertório.

O Édipo de Icke é um político contemporâneo na eminência de vencer uma eleição cuja esposa Jocasta prepara recepção para comemorar a provável vitória. No decorrer da celebração segredos terríveis vão sendo revelados. A grande qualidade do texto é o suspense criado em torno desses segredos, mesmo que todos espectadores conheçam de antemão o desfecho da tragédia. Diga-se de passagem, que essa qualidade já está presente no original de Sófocles, mas Icke a reforça.

A atual montagem de Édipo é trabalho de gente grande que sabe muito bem o que está fazendo a começar pela direção exemplar de Clara Carvalho que a cada dia se revela tão boa diretora como a grande atriz, cujos méritos já são bem conhecidos.

Clara harmoniza a primorosa interpretação do elenco com o cenário mais que urbano (verdadeira arquitetura cênica, como destaca a ficha técnica) de Chris Aizner, que incorpora as paredes do auditório do MASP; a trilha sonora sempre surpreendente de Gregory Slivar; os figurinos de Marichilene Artisevskis e a iluminação de Gabriele Souza que vem se destacando como uma grande profissional e deve estar enchendo de orgulho o papai Jorge, querido guardião do extinto Viga. Destaque também para o vídeo da entrevista de Édipo que abre o espetáculo.

O elenco de doze atores (coisa rara nos dias de hoje) brilha desde os papeis menores até os protagonistas.

Marisa Mainarte é a secretária Lídia.

Thomas Huszar (Etéocles), Thalles Cabral (Um Polinice gay!), Thaina Muniz (uma Antígona já combativa) são os filhos de Édipo e Jocasta. Icke eliminou Ismênia da filiação do casal.

Em pequenas, mas brilhantes participações têm-se Oswaldo Mendes como Tirésias e Roberto Borenstein como o Motorista. João Bourbonnais também se destaca como Quirino.

Rodrigo Scarpelli apresenta um Creonte enérgico, mas ainda conciliador antes da tragédia se revelar.

Resta escrever sobre o trio de ouro: Sergio Mastropasqua é um Édipo vigoroso e cheio de si no início, mas que demonstra muita fragilidade à medida que seu passado vai sendo revelado; Clarisse Abujamra tem um grande momento de sua carreira interpretando uma Jocasta poderosa que só sucumbe, fora de cena, ao final da peça; Chris Couto parece vinho que está cada dia melhor e sua participação como Mérope, a mãe de Édipo, surpreende e encanta a cada entrada em cena.

“Édipo” é Teatro com letras maiúsculas colocando aquilo que é fundamental no fazer teatral (texto, direção, elenco, cenografia, figurinos, iluminação, trilha sonora, produção) da maneira melhor e mais harmoniosa possível.

Longa vida ao Círculo de Atores esperando que  um dia monte um texto brasileiro. 

ÉDIPO está em cartaz no Auditório do MASP.

07/07/2026

Sexta e sábado, 20h / Domingo 18h

 

07/07/2026 

domingo, 5 de julho de 2026

AS BONDOSAS

 

Há pitadas de “As Fúrias” de Rafael Alberti, de “A Casa de Bernarda Alba” de Garcia Lorca e das tragédias cariocas de Nelson Rodrigues, mas também muita originalidade e criatividade na trama criada pelo autor maranhense Ueliton Rocon sobre três carpideiras conservadoras (mas nem tanto...) atuando no velório de uma moça despudoradamente vestida com roupas vermelhas.

Angústia, Astúcia e Prudência procuram realizar suas funções rezando e chorando diante do esquife, mas não se furtam de observar e comentar sobre a família da falecida e as pessoas presentes no velório. Aos poucos os desejos reprimidos dessas mulheres vêm à tona até um final epifânico para elas.

A encenação poderia resvalar para a caricatura e o deboche, mas a direção de Tom Pires conduz o espetáculo para caminhos muito mais sóbrios e interessantes. Utilizando-se de trilha sonora de Philip Glass e conduzindo uma belíssima direção de movimento do elenco ele confere dignidade ao resultado final.

Digna de nota a bela iluminação desenhada por Eduardo Salino e operada por Arnaldo D’Ávila que emoldura toda a ação.

O cenário de Sidcley Batista é formado apenas por cinco ou seis caixotes que, manipulados pelos atores,  vão adquirindo as formas necessárias para a ação.

Bonitos e discretos os vestidos cor de terra criados por Leandro Mariz.

O elenco masculino brilha sem afetação no papel das três mulheres.

Sidcley Batista mostra severidade na composição de Prudência, sendo a última a ceder aos imperativos da luxúria, Gerson Lobo representa Angustia, a mais doce e indecisa das três mulheres e Leandro Mariz como Astúcia tem ares de safada desde o início da história, desencadeando a seguir o tsunâmi carnal por tantos anos reprimido dessas três pobres mulheres.

Um bravo aos três atores pernambucanos por esse belo trabalho e um especial ao Gerson Lobo por trazê-lo aos palcos paulistanos.

AS BONDOSAS está em cartaz no Galpão do Folias: sexta, 20h / sábado, 18h e 20h / domingo, 18h 

04/07/2026

sábado, 4 de julho de 2026

HISTÓRIAS LINDAS DE MORRER

 

 

Os milénios não foram suficientes para o homem aprender a ver a morte

(André Malraux) 

        No seu dia a dia, os médicos especialistas em cuidados paliativos procuram sempre desmentir essa frase do escritor francês.

Ana Claudia Quintana Arantes (-1970), é uma dessas profissionais, além de ter vários livros sobre como enfrentar a morte, afinal a morte faz parte das nossas vidas desde o dia em que nascemos.

Cláudia Barral e Marcos Barbosa coletaram vários casos que aparecem nos livros de Ana Claudia e criaram uma dramaturgia onde uma atriz incorpora a médica e conta esses casos na forma de uma palestra para os espectadores.

Tema árido e espinhoso que Fernando Nitsch soube tratar com muita sensibilidade dosando a palestra da médica com a participação de uma graciosa e atenciosa assistente (Tita Couto) e as incríveis imagens criadas por André Grynwask e Pri Argoud (Um Cafofo).

Todos os spots vão para a excelente composição de Letícia Cannavale como a médica palestrante que se dirige diretamente ao público de maneira envolvente e simpática. As tristezas e as alegrias desse trabalho tão delicado que lida com a finitude são compartilhadas com os espectadores de forma direta e com muita emoção.

A peça absolutamente não é depressiva, pois ao tratar de como lidar com a morte, faz uma celebração da vida.

O tema dialoga com o livro “O Último Suspiro – Acompanhar o fim da vida” (Le Dernier Souffle – Accompagner la fin de vie) de Claude Grange (médico) e Régis Debray, que resultou em um belo filme dirigido pelo realizador greco-francês Costa Gavras exibido em nossos cinemas em 2025.

Tema muito importante e necessário para melhor compreensão da vida e de sua finitude precisa ser visto e refletido por todos.

A estreia emocionada da peça contou com a presença iluminada da Dra. Ana Claudia.

A peça está em cartaz no Teatro Vivo às quartas e quintas às 20h.

NÃO DEIXE DE VER!

 

04/07/2026