segunda-feira, 8 de junho de 2026

DONATELLO

 

Vitor Rocha é um rapaz (Rapaz, sim! Ele tem apenas 28 anos) de muito talento e rara sensibilidade. Lançou-se como autor com apenas 21 anos com “Cargas d’Água” e não parou mais, acumulando sucessos de crítica e de público com os quatro espetáculos que se seguiram, culminando com essa preciosidade chamada “Donatello”, escrita e estreada em 2024 e agora retornando a São Paulo para uma bem-vinda temporada no Teatro do Núcleo Experimental.

A peça mostra um homem que desde menino teve uma relação muito amorosa com seu avô Donatello. Foi numa sorveteria muito frequentada pelos dois que surgiram os primeiros sinais de Alzheimer no velho. A partir daí o homem mostra os desdobramentos da doença do avô e a relação com seus pais e uma primeira namorada; cada sentimento experimentado por ele tem o sabor de um sorvete criando um jogo deliciosamente lúdico com a plateia, coroado com frase emblemática que reproduzo a seguir:

Tem gente que é tão boa que merece virar sabor de sorvete”.

A encenação dirigida por Victória Ariante privilegia a presença de Vitor em cena interpretando o neto de Donatello. As belas canções que permeiam a narrativa têm letras do próprio Vitor e músicas de Elton Towersey. Tudo flui de maneira delicada e bem humorada apesar de tratar de assunto sério e doloroso.

Vitor Rocha é presença luminosa em cena. É simpático, bonito e carismático criando uma relação de intimidade e cumplicidade com o público pouco vista em tantos espetáculos a que já assisti.

Sentado no palco, pude ver os olhos de muita gente na plateia tão marejados de emoção como os meus.

“Donatello” não resvala para o melodrama em nenhum momento graças ao texto e interpretação de Vitor, à direção de Victória e às intervenções do pianista Guilherme Gila.

Muitos são os momentos marcantes desses noventa minutos que passam voando, mas se é para destacar apenas um, fico com aquele que é quase uma cena de cabaré onde Vitor canta e interage com o pianista sentado ao seu lado.

As relações do narrador com a nova namorada (que é uma das espectadoras) quando ele descobre o amor que tem sabor de flocos também é uma cena deliciosa que para este espectador tem sabor de chocolate já que este é meu sabor preferido.

“Donatello” agrada em cheio qualquer que seja o sabor de sua preferência e é preciso estar com o coração aberto para melhor degusta-lo.


Em cartaz no Teatro do Núcleo Experimental aos sábados, 20h e aos domingos, 19h até 19 de julho.

Corra para ir, pois você vai querer ver de novo. O espetáculo tem gosto de QUERO MAIS! 

08/06/2026

 

sábado, 6 de junho de 2026

OS SAPATOS QUE DEIXEI PELO CAMINHO

 

O Teatro do Kaos é um grupo teatral sediado em Cubatão que até hoje realizou poucas temporadas mais longas nos teatros deste lado da serra. Ao que eu saiba a última temporada que fez por aqui foi em 2012 com “A Falecida” na área livre da saudosa Oficina Cultural Oswald de Andrade. Quatorze anos!!

Por outro lado, as atividades do Kaos em Cubatão são intensas com realização de espetáculos no belo teatro existente em sua sede, cursos de formação de atores e atrizes, festivais de teatro e uma grande apresentação anual intitulada “Caminhos da Independência” na Semana da Pátria. Lourimar Vieira, fundador do grupo há 29 anos, está a frente das atividades do Kaos.

Por tudo isso é muito bem-vinda a temporada do Kaos no Teatro Sérgio Cardoso de 05 a 28 de junho com “Os Sapatos Que Deixei Pelo Caminho”, espetáculo icônico criado pelo grupo em 2014.

A dramaturgia de Cícero Gilmar Lopes baseia-se em argumento de Lourimar Vieira que fala sobre as agruras e também alegrias de Poim (apelido de Lourimar) como migrante do Piauí para São Paulo, desde sua chegada muito assustado até a criação do Kaos em 1997.

O elenco de uma atriz (a bela Camila Sandes) e quatro atores (Fabiano Di Melo, Levi Tavares, Lourimar Vieira e Luiz Guilherme) encarrega-se de contar a saga de Poim de forma onírica e não cronológica sob a direção de Marcos Felipe do Grupo Mungunzá.

O sugestivo título da peça parece referir-se às coisas más e boas que surgem em nossas vidas e que por uma razão ou outra deixamos para trás.

Homofobia, aceitação de homossexualismo, burocracia e um imenso amor ao teatro são temas tratados neste espetáculo.

Trata-se de ótima oportunidade de a cidade conhecer o trabalho desse importante grupo teatral.

Sextas, sábados e domingos às 19h

 

06/06/2026

sexta-feira, 5 de junho de 2026

VISITA A DOMICÍLIO

 

        “Visita a domicilio” ou “Visita em domicílio”? Levando em conta a situação da peça onde um médico se dirige a um domicílio para atender um paciente, o mais correto, segundo o Google, seria “Visita em domicílio” (*).

        Polêmica gramatical à parte, a peça do dramaturgo argentino Alberto Romero (“Tu Hipocampo y Mi Caballito de Mar”, no original) trata do reencontro inesperado entre dois homens. Um deles (Gabo) chama um médico para tratar de uma crise de nervo ciático e para surpresa de ambos, este médico é Fernando que foi seu namorado na adolescência e a relação foi bruscamente interrompida por razões que Gabo desconhece. A peça ocorre entre acertos e desacertos na conversa dos dois homens para só esclarecer os motivos que levaram Fernando a interromper a relação nas cenas finais. O texto não oferece maiores novidades e tem um desenlace previsível, sendo bastante valorizado pela interpretação dos dois atores.

        A direção de Zé Guilherme Bueno e Miguel Arcanjo Prado é discreta e bastante focada na interpretação do elenco.

        Há várias trocas de objetos de cena feitas à vista do público por dois contra regras que a meu ver são desnecessárias, pois toda a ação da peça se passa no domicílio de Gabo e em vez de dinamizar (creio que foi essa a intenção dos encenadores) essas trocas quebram o ritmo da peça. Apesar de bastante vibrantes, as canções da trilha sonora também não colaboram para enriquecer a cena.

        Os maiores trunfos da peça são os dois intérpretes.

Cícero de Andrade é ator bastante sensível sabendo dosar as dúvidas, a ternura e a indignação presentes no seu personagem Fernando. É um grande prazer vê-lo em cena.

Gabo é a personagem principal da peça e Juan Tellategui o compõe de forma surpreendente. Transitando entre a comédia e o drama, ele usa sua expressão facial como a principal arma para mostrar os sentimentos de Gabo. Em muitos momentos suas expressões patéticas (no sentido de suaves, ingênuas, enternecedoras) me remeteram ao saudoso Stan Laurel (o Magro da dupla cinematográfica). Tellategui também não descuida da expressão corporal e de sua potente voz.

A cena final, onde muita coisa se esclarece tem um embate furioso entre Gabo e Fernando que reafirma os talentos de Cícero e Juan.

Trata-se de mais uma peça com tema LGBT+ em cartaz na cidade que tem o mérito de fugir dos clichês tão comuns nesse gênero de espetáculo.

O simpático Alberto Romero, autor da peça, estava presente na apresentação a que assisti.

(*)   Visita a domicílio: Usa-se a preposição "a", pois o termo "visita" e o verbo "ir" transmitem ideia de movimento ou deslocamento até um local.

       Visita em domicílio: Usa-se a preposição "em" para indicar o local fixo onde a ação está acontecendo. É muito comum na área da saúde para descrever o atendimento que é realizado dentro da moradia do paciente.

        VISITA A DOMÍCILIO está em cartaz no Teatro Sérgio Cardoso (Sala Paschoal Carlos Magno) às quartas e quintas às 19h até 25/06.


        04/06/2026

quinta-feira, 4 de junho de 2026

MUDANDO DE PELE

 

Parece que Amanda Wilkin, dramaturga e atriz britânica, autora desse texto (Shedding a Skin), não gosta de revelar sua idade. Pelas fotos ela é uma bela mulher negra que aparenta ter cerca de quarenta anos.  Foi Taís Araujo, que tem até uma semelhança física com Wilkin, quem descobriu a peça e idealizou sua encenação.

Em termos de conteúdo a peça é uma história já muitas vezes contada sobre alguém que vive em uma sociedade opressora e preconceituosa, mas acha brechas para sair desse ambiente e se realizar como ser humano.

Sempre há muitas formas de se contar uma história e com uma somatória de talentos se pode chegar a excelentes resultados e é este o caso do espetáculo ora em cartaz na cidade.

Pela tradução de Diego Teza e o dramaturgismo de Nathalia Cruz o texto flui de maneira ágil e atraente na deliciosa interpretação de Taís Araujo, que mantém o público nas suas mãos nos quase noventa minutos de duração da peça, fazendo denúncias de maneira leve e com muitos toques de humor.

Existem encenadores que parecem ter um estoque de criatividade dentro de si, surpreendendo o público a cada novo trabalho e este é o caso de Yara de Novaes. As muitas surpresas desta encenação como a criativa iluminação de Gabriele Souza, o cenário móvel de André Cortez, as intervenções de Dani Nega e Layla e, é claro, Taís Araujo no centro de tudo, são regidas por Yara com mão de mestre, provando que a forma pode tornar brilhante um conteúdo mais simples.

Cabe notar também o belo programa impresso da peça que contém mensagens esclarecedoras de Taís, do SESC, de Yara onde ela faz uma descrição afetuosa de todas mulheres que participaram da encenação e da produtora Quintal que tem uma poética definição de teatro que quero reproduzir no final desta matéria:

TEATRO, esse lugar que é restaurador, democrático, coletivo, imenso e infinito. Lugar que embala esperanças, aprimora as percepções de mundo e nos aproxima do mundo.”

É ISSO AÍ!!

MUDANDO DE PELE está em cartaz no SESC 14 Bis de 04/06 a 05/07 de quinta a sábado, 20h e domingo, 18h.

IRRESISTÍVEL! 

04/06/2026

sexta-feira, 29 de maio de 2026

MASSAPÊ

 

No belo programa impresso da peça, o ator Antônio Chapéu declara: “O que nóis quer mesmo é falar de nóis. É só deixar que nóis fala. Viva a cultura e os saberes populares. Viva o Massapê” e é com essa simplicidade e até certa humildade que ele nos conta a saga da sua família (Silva) que migrou do interior de Minas Gerais para trabalhar nos canaviais de Piracicaba.

A pesquisa das lembranças e memórias dos cortadores de cana realizada pelo “Grupo Andaime”, do qual Chapéu é um dos fundadores, foi a base para Solange Dias criar a dramaturgia do espetáculo que flui cenicamente com Chapéu contando de maneira saborosa os causos reais e inventados que são intercalados com as canções criadas por Juh Vieira tocadas por ele, Marcos Coin e Dicinho Areias.


A encenação de Rogério Tarifa preserva a singeleza da concepção de Chapéu no cenário criado por ele e Diego Dac que contém elementos da natureza como água e um tapete de massapê, o solo escuro propício para o cultivo de cana, que dá título ao espetáculo. O ambiente é enriquecido com os adereços de Luana Miyamoto, muito importantes para o desenvolvimento da trama. A iluminação da cena é assinada por Marisa Bentivegna.

Massapê me parece um “Amarcord” caipira realizado com muito amor por Chapéu, Tarifa, Vieira e todo o Grupo Andaime que leva o público a sentir na boca um gostinho de café com bolo de fubá servido por Dona Mariana, mãe de Chapéu, em um fim de tarde ensolarado de Piracicaba. Não deixa de haver também um gosto amargo de indignação ao se ouvir as denúncias de racismo e do tratamento de alguns familiares como escravos.

Pouco antes do final do espetáculo parentes do ator são convidados a entrar em cena e aí a emoção transborda tanto no palco como na plateia.

A noite de estreia (28/05) foi coroada com a presença de dois irmãos e uma fofinha irmã de 86 anos que cantaram junto com Chapéu a última canção da peça.

Mais um gol de Tarifa em sua defesa e preservação do teatro de grupo. Muito louvável a atitude do Andaime de convida-lo para dirigir “Massapê” que comemora os 40 anos do grupo.

MASSAPÊ está em cartaz no SESC Belenzinho até 14/06 às sextas e sábados às 19h e aos domingos às 16h

 

29/05/2026

 

terça-feira, 26 de maio de 2026

QUARTO 2107 – A NOITE QUE O SEGREDO BATEU À PORTA

 

       O cartaz dessa peça dá a entender que se trata de mais uma peça gay como tantas outras que estiveram (ou ainda estão) em cartaz nos palcos paulistanos nos últimos meses (Brokeback Mountain, Marginal Genet, Romeu e Romeu, Homem Que É Homem Não Chora, Meu Garoto, Tenente Seblon), mas o enfoque aqui é bastante diverso.

       A dramaturgia de Arthur Pires coloca dois homens em um quarto de motel em uma situação relativamente banal sem conflitos onde o mais velho, de fachada hetero e pai de família, se encontra com um experiente garoto programa para uma tarde de sexo efêmero sem maiores consequências.

Por recurso narrativo presente na teoria do drama (“coup de théâtre”) o autor introduz um conflito na segunda parte da peça, que irá alimenta-la até o fim da mesma. Por motivos óbvios “anti-spoiler”, não cabe indicar aqui qual é esse conflito, bastando escrever que ele altera por completo a relação dos dois homens levando inclusive a mudanças de rumo em suas vidas para além do quarto 2107.

       A montagem de Rodrigo Ferraz conduz essa trama discretamente com foco nas interpretações de Alexandre Acquiste (o homem) e Bruno Gadiol (o garoto de programa). Os atores respondem com dignidade às questões abordadas pela peça em interpretação naturalista que jamais envereda para o melodrama.

As cenas de sexo são bem resolvidas sem jamais resvalar para a nudez explícita, o erótico apelativo e o mau gosto, algo muito comum nesse tipo de espetáculo.

O toque feminino de Kyra Piscitelli na assistência da direção com certeza colaborou para a elegância e a discrição do resultado final.

A palavra digna pode muito bem ser utilizada para adjetivar essa montagem em cartaz no Espaço Parlapatões.

 

26/05/2026

      

 

domingo, 24 de maio de 2026

12º ROUND – A HISTÓRIA DE EMILE GRIFFITH

 

Ambientes conservadores como o futebol, os esportes em geral e até o meio religioso costumam negar que neles há homossexualismo, mas a realidade já se mostrou bem diferente.

Em boa hora vem à tona a história de Emile Griffith (1938-2013), um caso perverso de cancelamento por preconceito sofrido por esse boxeador pelo fato de ser homossexual em um meio machista e conservador como o box nas décadas de 1950 e 1960 onde preconceitos e censura eram ainda mais  acirrados do que nos dias de hoje, mesmo assim o nome de Emile Griffith ainda parece ter sido apagado da história do esporte, como reforça o diretor do espetáculo, Bruno Lourenço, no release da peça; “Um campeão mundial praticamente apagado do nosso imaginário por homofobia. Como é possível que saibamos tanto sobre Muhammad Ali, Pelé, Michael Jordan e quase nada de Griffith?”, daí a importância do resgate idealizado pelo ator Fernando Vitor, dramatizado por Sérgio Roveri e trazido a cena pelo recém criado “Coletivo Nocaute” com direção de Bruno Lourenço.

No cenário concebido por Maira Souto e Natália Burger, um ringue de box divide o vestiário e uma sala onde acontecem várias cenas. A iluminação é assinada por Ariel Rodrigues.

O texto de Roveri percorre a trajetória de Griffith em rounds, terminando no 12º em 1962, onde o boxeador nocauteou seu adversário – aquele que o havia agredido verbalmente, chamando-o de bicha e viado - com tal violência que resultou na morte do sujeito dez dias após a luta. Essa morte causou remorso a Griffith durante muitos anos.

A encenação de Bruno Lourenço é pop, pondo o elenco a coreografar “dance music” em vários momentos, suavizando a aridez do tema. Cabe notar a ótima trilha sonora a partir de sucessos da época.

Fernando Vitor tem físico e preparo técnico no box para interpretar Griffith com muito vigor e paixão. Alexandre Ammano, que já brilhou em “O Avesso da Pele” e “A Máquina”, volta a fazê-lo nos papeis do amante e do adversário cubano. Letícia Calvosa empresta sua bela figura às diversas personagens femininas da trama.

Após temporada no SESC Ipiranga em 2025, o espetáculo está de volta em bem-vinda temporada no TUSP – Maria Antônia de quinta a sábado às 20h e aos domingos às 19h. Ingressos gratuitos.

 

24/05/2026

sábado, 23 de maio de 2026

NA ANATOMIA OCA DOS PÁSSAROS

 

Fotos de Guto Muniz

A arte tem de ter algo que me tira do chão e deslumbra”

(Ferreira Gullar) 

Inicio esta matéria com um chavão: a sensibilidade à flor da pele das duas euritmistas que abrem o espetáculo é transmitida de imediato para o público que acompanha deslumbrado a evolução da cena.

Este escrito pode parecer exagerado, mas poucas vezes em minha longa trajetória como espectador tive essa sensação de deslumbramento a que se refere Ferreira Gullar na frase em epígrafe.

        O mote da peça de Dino Bernardi é o dilema e o remorso de Santos Dumont diante do uso bélico e destruidor de sua invenção. As divagações do inventor são ditas de maneira solene por Fernando Aveiro, provando sua versatilidade, haja vista sua composição gaiata e extrovertida em “Lokona” (ainda em cartaz no mesmo espaço).


        Leigo no assunto recorri ao Google na definição suscinta de euritmia: “Ela tem como objetivo tornar visível através do corpo aquilo que normalmente apenas ouvimos; traduzindo ritmos, melodias, vogais e consoantes em gestos.” e isso realmente se torna visível nas impressionantes performances de Marília Barreto e Renate Nisch, algo bastante distinto de uma coreografia para ballet ou da expressão corporal de atores em peças de teatro. Fica difícil traduzir em palavras, mas é diferente e extremamente sensitivo.

        O diálogo cênico entre o gestual das euritmistas, os sons sofisticadíssimos compostos por Marcelo Petraglia e executados ao vivo por Luis Antonio Ramoska (fagote) e Saulo Camargo (percussão) e as intervenções de Fernando Aveiro como Santos Dumont é indescritível.

        Somam-se à beleza da encenação de Dino Bernardi, os objetos de cena criados por ele e Cesar Rezende e a iluminação de Thiago Capella.

        Nem sempre a soma de tantos talentos resulta em algo poderoso e belo, mas neste caso está mais que provado que dois mais dois é muito mais que quatro.

        Só vendo! Só vendo!

        Vejo no release que este espetáculo data de 2019 e fico muito surpreso que nesses sete anos não tenha tido a repercussão merecida por parte da crítica nos palcos paulistanos.

        Ainda há tempo dos sensíveis de plantão degustarem esta obra prima no Teatro Manás Laboratório até 29 de maio, com sessões de quarta a sexta às 21h.

 

        23/05/2026       

 

 

quinta-feira, 21 de maio de 2026

SETE MINUTOS

 

“Antes de começar o espetáculo temos de nos lembrar

de que na sala há algumas pessoas para quem essa é

a primeira experiência teatral e outras para quem essa

será a última.”

(Ariane Mnouchkine) 

O texto de Antonio Fagundes é uma declaração de amor ao teatro e ao respeito e interação que deve haver entre o elenco e o público.

Os primeiros quinze minutos da peça mostram o incômodo e até a revolta da personagem do velho ator (Norival Rizzo) que representava MacBeth e interrompeu o espetáculo diante das atitudes do público como querer entrar atrasado na plateia após o espetáculo já ter iniciado, desembalar bala ruidosamente, atender o celular, se espreguiçar e até tirar os sapatos. Ele expõe seus sentimentos para um jovem ator (Conrado Sardinha) e para a produtora (Natália Beukers) que tentam pôr panos quentes na situação.

Como todo espectador que também vê o teatro como um espaço sagrado, não há como não se solidarizar com as queixas do ator.

Esses quinze minutos são o cerne da peça de Fagundes e sua parte mais brilhante, depois disso a ação apresenta a reação do público diante da interrupção do espetáculo pelo ator, entrando em cena uma mulher queixosa que chegou um minuto atrasada e foi impedida de entrar (Ana Andreatta), um senhor que vinha a um “show-teatro” pela primeira vez e viu o mesmo interrompido (Walter Breda) e um guarda (Fábio Esposito) que vê como missão descobrir se é o público ou o ator quem está com a razão. Esta segunda parte recai em uma comédia sem trazer maiores novidades para a trama, além de incluir cenas que parecem estar ali para aumentar a duração da peça, como as digressões do ator sobre a origem do teatro (Tespos), a história sobre um espetáculo de Martha Graham onde uma senhora do público chorou copiosamente contada pelo jovem ator e o longo monólogo do velho ator quase ao final do espetáculo, que resvala para uma melodramaticidade desnecessária.

A jovem Natália Beukers mostra-se corajosa e eficiente ao produzir o espetáculo contando com importantes profissionais como Fábio Namatame (cenário e figurinos), Domingos Quintiliano (design de luz), Jonatan Harold (música original e sonoplastia) e o próprio Antonio Fagundes na direção.

Os veteranos Norival Rizzo e Walter Breda (este apesar da pequena participação) brilham em cena e estão muito bem acompanhados pelos jovens Conrado Sardinha e Natália Beukers. Completam o elenco Fábio Esposito que exagera na truculência do policial e Ana Andreatta numa engraçada composição como a mulher estressada.

É importante mostrar no teatro o imediatismo que hoje existe onde as pessoas não têm mais paciência de ler um longo texto, ou de assistir uma obra mais longa, seja no cinema ou no teatro, sem consultar o celular para saber se a empregada já deu semente de girassol para o papagaio. Que a peça sirva de lição para aqueles que assim agem.

Teatro é um solo sagrado, vamos respeitar!! 

SETE MINUTOS está em cartaz no Teatro Cultura Artística até 1º de agosto. Sexta e sábado 20h / Domingo 18h

IMPERDÍVEL PARA QUEM AMA O TEATRO!


21/05/2026

domingo, 17 de maio de 2026

SIMPLESMENTE EU, CLARICE LISPECTOR

 

BETH CONTA CLARICE EM TEMPO DE DELICADEZA

 

        Intercalando falas de Clarice Lispector com trechos de suas obras, Beth Goulart construiu a dramaturgia deste raro recital onde a atriz apresenta a biografada com muita sensibilidade e delicadeza.

        A prosa de Lispector é cheia de nuances e filigranas, nem sempre detectadas em um primeiro contato; Beth consegue a proeza de traduzir essa prosa, que também é poesia, de forma clara e precisa embalando o público no universo “lispectoriano”.

        O cenário muito claro de Ronald Teixeira e Leobruno Gama é composto de uma enorme cortina de tiras que ocupa toda a volta do palco, uma cadeira e um sofá e é belamente iluminado com o usual talento de Maneco Quinderé.

        Dias atrás comentei sobre a problemática solução encontrada em um espetáculo, para a troca de figurinos das atrizes. Neste trabalho a troca de figurinos de Beth é uma verdadeira obra de arte. Sutilmente ela se dirige a um ponto da cortina e deixa elementos, retirando outros que elegantemente veste em cena sem quebrar o clima de encantamento.

        Beth Goulart é uma grande atriz que honra a herança recebida de seus pais Nicette e Paulo e é com muito talento que ela interpreta e dirige esse belíssimo espetáculo que tem supervisão artística de Amir Haddad. É muita gente boa reunida!!

        Esse trabalho foi concebido e apresentado há 17 anos, quando ganhou vários prêmios e o bonito, é que ele mantém o frescor e a mesma qualidade da estreia.

        A peça está em cartaz no Teatro Moise Safra (não confundir com o Teatro J. Safra) com capacidade para 420 espectadores e estava completamente lotado na sessão de ontem (16/05), onde as 420 pessoas presentes ovacionaram emocionadas a apresentação de Beth, que ao final ainda reforçou as ideias de Clarice e as suas próprias sobre a importância do amor, da espiritualidade e da humanidade na vida dos seres humanos.

        Grande lição de vida a ser prestigiada por todos aqueles que, como dizia Anne Frank, apesar de tudo ainda acreditam na bondade humana.

        Em cartaz até 13/06. Sessões sexta, 20h / sábado e domingo, 19h.

        17/05/2026

 

 

       

sexta-feira, 15 de maio de 2026

AS CENTENÁRIAS

 

        1 – A primeira montagem

Em 2009, apesar da excelência do autor (Newton Moreno), do diretor (Aderbal Freire Filho) e das atrizes (Andrea Beltrão e Marieta Severo) para mim algo não funcionou e sai do espetáculo frustrado quando vi a expectativa de ver esse quarteto de ouro não ser correspondida. O espetáculo fez muito sucesso e agradou a maioria das pessoas e, talvez, eu não estivesse em um bom dia para usufruir do mesmo. 

2 – Pura delícia

Quase dezessete anos depois Juliana Linhares teve a ideia de fazer um musical com a peça e o resultado é essa delícia ora em cartaz no SESC Bom Retiro.

Chico Cesar musicou letras escritas por Moreno, escreveu algumas letras e aproveitou “incelenças” que já constavam do original e o resultado é uma bela partitura muito bem dirigida e arranjada por Elisio Freitas. Um quarteto de músicos acompanha toda a encenação.

O texto de Moreno parece ter ganho um frescor com o reforço na gaiatice das personagens, algo muito valorizado por Laila Garin (Socorro), Juliana Linhares (Zaninha) e o músico Leandro Castilho em diversos papeis. Ariano Suassuna e João Cabral de Melo Neto são referências muito bem-vindas nesta obra do dramaturgo e não há como não lembrar de João Grilo e Chicó na relação e nas atitudes das duas carpideiras, assim como na aparição de Nossa Senhora em “O Auto da Compadecida” na hilária cena em que Socorro se veste de Deus para salvar Zaninha da morte. Longe de imitação, trata-se de inspiração que valoriza ainda mais a obra desse grande autor.

Luiz Carlos Vasconcelos, diretor do memorável “Vau de Sarapalha”, mais uma vez acerta acentuando o humor do texto e valorizando o trabalho do elenco, auxiliado pela parte musical já citada acima, pela movimentação das atrizes orquestrada por Vanessa Garcia, pela cenografia discreta, mas eficiente de Aurora dos Campos, iluminada por Elisa Tandeta e os figurinos (Kika Lopes e Heloisa Stockler), incluindo os crochets de Juliana Martins.

Se há um senão, e sempre há um senão, fica por conta das mudanças de figurino das atrizes de uma cena para outra, sempre realizadas da mesma forma com elas na penumbra, enquanto o conjunto toca uma música até elas estarem prontas e entrarem em cena novamente. Essas interrupções quebram momentaneamente o encanto do espetáculo e talvez pudessem ser realizadas de forma mais criativa.

O teatro brasileiro fica em festa com um espetáculo como esse, sentindo-se forte e valorizado.

Viva o teatro brasileiro! 

AS CENTENÁRIAS está em cartaz no SESC Bom Retiro até 14 de junho de quinta a sábado às 20h e domingos às 18h.

O teatro é pequeno para comportar espetáculo tão bom e de forte apelo popular, por isso CORRA para adquirir o seu ingresso.

15/05/2026

 

 

 

 

 

 

domingo, 10 de maio de 2026

NA SALA DOS ESPELHOS

 

1 – Um voto tardio/Antes tarde do que nunca.

Quando os jurados da APCA da categoria teatro se reuniram para fazer as indicações do segundo semestre de 2025 ao analisarem os nomes das atrizes, aquele de Carolina Manica surgiu com muita força e bastante elogiado por boa parte do grupo pelo seu trabalho em “Na Sala de Espelhos”. Infelizmente, eu não tive a oportunidade de assistir ao espetáculo e na hora da votação, obviamente não pude votar em Carolina e ela recebeu a indicação junto com outra duas atrizes. Fiquei com muita vontade de assistir ao seu trabalho, mas a peça já não estava mais em cartaz.

Meses depois, na noite de ontem, tive a chance de assistir “Na Sala dos Espelhos” e comprovar o imenso talento de Carolina na interpretação daquela mãe que põe em xeque as aparências dela e de sua filha Nina. Aqueles colegas da APCA que votaram nela estavam certos e, embora tardiamente, meu voto também é para ela.

2 – O espetáculo

A peça é uma adaptação das diretoras Michelle Ferreira e Maira De Grandi do livro homônimo da quadrinista sueca Liv Strömquist (1978-) e a encenação não nega sua origem em uma história em quadrinhos. A iluminação cheia de nuances do premiado Caetano Vilela e os figurinos de Fábio Namatame colaboram para o bom resultado da encenação onde o foco principal é o trabalho da atriz.

Numa interpretação onde a expressão corporal tem a maior importância, a atriz dialoga em perfeita sintonia com a poderosa trilha sonora criada por Ava Rocha e Grisa. A movimentação cênica de Carolina na primeira parte da peça é de tirar o fôlego do público.

Quando parece que todas as surpresas tinham sido postas em cena, a atriz aparece como a rainha má da Branca de Neve e, mais uma vez, dá um show na frente do espelho ao perguntar várias vezes a ele “Diga, espelho meu, existe neste reino alguém mais bela do que eu?”

O tempo passa para todas as personagens e a peça termina de forma emocionante, do mesmo modo como acaba para todos nós.

A ovação do público ao final é prova da beleza desse espetáculo e do talento de Carolina Manica.

Neste domingo é a última apresentação na cúpula do Theatro Municipal, mas fique atento que ele pode voltar em outro espaço. 

10/05/2026

 

 

 

 

sexta-feira, 8 de maio de 2026

O HOMEM DECOMPOSTO

 

Foto de Nil Caniné

“Que obra de arte o homem é”

(William Shakespeare) 

         A metáfora do espelho quebrado usada pelo dramaturgo romeno/francês Matéi Visniec (1956-) para comentar essa peça é muito oportuna. Realmente ele estilhaça/decompõe o ser humano e o revela impiedosamente por meio de seus cacos. Esses cacos humanos resultaram em cenas curtas que integram o texto.

        O encenador Ari Coslov recolheu alguns desses cacos e os mostra nesse belo espetáculo vindo do Rio de Janeiro e recém estreado no SESC Pinheiros. Ele deixa atrizes e atores à vontade em um palco nu, mas muito bem iluminado por Aurélio de Simoni, para brilharem, quer em solos, quer em cenas de conjunto, por meio de seus talentos e suas incríveis movimentações em cena dirigidas por Lavinia Bizzotto e Alexandre Maia.

        A peça inicia com uma reconstituição, a meu ver irônica, mas muito bela da "Santa Ceia" de Leonardo Da Vinci e segue com a apresentação dos cacos humanos, sendo o primeiro aquele do homem que se refugia em um círculo, clara referência ao doentio individualismo que tomou conta da nossa espécie. Mario Borges defende com paixão esse personagem.

        E as cenas se sucedem com excelentes intervenções de Júnior Vieira (invejável dicção), Marcelo Aquino (ótimo como o homem que não consegue parar de correr), Andrea Dantas (estreando em São Paulo, substituindo brilhantemente Guida Vianna) e Dani Barros, de quem os palcos paulistanos estavam sentindo muito a sua falta.

Assistir a Dani Barros contando a história das borboletinhas carnívoras é uma prova de que os seres humanos são verdadeiramente uma obra de arte e, como tal, criam outras pérolas de arte.

Cabe notar, porém, que esse mesmo ser humano é capaz de ações terríveis, tal como mostra este espetáculo.

Cruel e mordaz em sua crítica aos desmandos do homem, mas repleto de toques de humor, “O Homem Decomposto” é mais uma prova que a obra de Visniec é cada vez mais necessária e prova também a qualidade de espetáculos cariocas que chegam até aqui.

O HOMEM DECOMPOSTO está em cartaz até 06/06 no SESC Pinheiros de quinta a sábado às 20h30.

IMPERDÍVEL! 

08/05/2026

 

 

quinta-feira, 7 de maio de 2026

MADAME BLAVATSKY – AMORES OCULTOS

 

Há mais mistérios entre o céu e a terra do que pode sonhar nossa vã filosofia”

(Shakespeare em “Hamlet”)

Já há alguns anos Mel Lisboa vem atuando nesse monólogo e só agora tive a oportunidade de assistir a esse belo trabalho que deveria ter merecido muitos prêmios na ocasião de sua estreia, mas nunca é tarde para elogiar a rigorosa composição de Helena Petrovna Blavatskaya (1831-1891), conhecida por Madame Blavatsky, criada por Mel.

Em recurso dramatúrgico bastante interessante, a autora Claudia Barral, levando em conta a mediunidade de Madame Blavatsky, coloca em cena uma atriz que por meio de uma incorporação mediúnica recebe Madame, que passa a revelar ao público fatos de sua vida e de seu pensamento.

Poucas vezes a frase de Shakespeare em epígrafe casou tão bem com um espetáculo.

Marcio Macena é o diretor do espetáculo e  João Pimenta assina o sugestivo figurino vestido pela atriz.

Mel transita de uma a outra personagem de maneira criativa, mostrando sua versatilidade em cena; para reforçar este fato basta citar que há poucos metros dali (Teatro Porto) ela incorpora Rita Lee há mais de um ano.

Nosso teatro precisa de atrizes com esse talento.

Parabéns Mel!! 

MADAME BLAVATSKY está em cartaz no Teatro Estúdio às segundas e terças às 20h no Teatro Estúdio.

NÃO DEIXE DE VER! 

07/05/2026


 

terça-feira, 5 de maio de 2026

MOMENTOS DA CERIMÔNIA DE ENTREGA DO PRÊMIO APCA 2025


MOMENTO NOBRE 

O Teatro de Contêiner Mungunzá foi premiado na categoria arquitetura por sua RESISTÊNCIA URBANA.

O grupo recebeu o prêmio com um protesto belíssimo e elegante sobre o despejo do Contêiner, digno de outro prêmio.

Um garoto, filho de Marcos Felipe e Sandra Modesto iniciou os agradecimentos, complementados por Sandra.

PARABÉNS MUNGUNZÁ!! E RESISTAM...


MAIS UM MOMENTO NOBRE 

Haisem Abaki foi premiado na categoria rádio e seu agradecimento foi acompanhado por um coro apaixonado do público: FICA ELDORADO!!!

Emocionante.


MOMENTO BOTIJA

 Os queridos Jhoao Junnior e Maria Alencar recebendo o prêmio APCA na categoria teatro infanto-juvenil pelo delicioso espetáculo A BOTIJA, um pequeno inventário de histórias fantásticas do Nordeste Brasileiro.

PARABÈNS!!! 


MAIS UM MOMENTO 

A cerimônia iniciou com a premiação da categoria televisão e o primeiro prêmio foi para Lima Duarte com o “Troféu especial 75 anos da TV brasileira”.

O grande Lima Duarte foi ovacionado de pé quando entrou no palco e iniciou um discurso sobre sua trajetória desde a infância. Premidos pelo tempo Barbara Salomé e Daniel Warren tentavam timidamente interromper o ator que se recusava a parar. Com a ajuda dos aplausos da plateia o discurso foi interrompido nos anos 1950, quando ele entrava na televisão. Se deixasse, Lima varava a noite até chegar nos seus atuais 95 anos.

Grande presença!


OUTRO MOMENTO 

Discreto e elegante Ney Matogrosso recebeu o Grande Prêmio da Crítica na categoria música popular.

Merecidamente muito aplaudido! 


O MOMENTO TEATRO 

E aqui fotos dos premiados na categoria TEATRO da qual faço parte como jurado.

PARABÉNS a essa turma linda que engrandece essa arte apaixonante.

Viva Silvia Gomez, Dinho Lima Flor, Marcelo Medici, Paula Cohen, Grupo Galpão, Programa Persona e Caetano Vilela.

Silvia Gomez
Dinho Lima Flor
Marcelo Medici
Paula Cohen
Grupo Galpão - Fernanda Vianna
Persona - Atilio Bari
Caetano Vilela