sábado, 10 de setembro de 2022

MIRADA 2022 - A CAMINHADA DOS ELEFANTES

 


Miguel Fragata

Segundo a sinopse da peça contida no catálogo do MIRADA este espetáculo é indicado para crianças e famílias, versando sobre a existência, a vida e a morte. Eu completaria escrevendo que ele é indicado para qualquer ser humano que tenha sensibilidade para as coisas belas e delicadas.

A Caminhada dos Elefantes baseia-se em um caso real ocorrido na África do Sul em 2012 quando um rebanho de elefantes fez uma caminhada até a residência do ambientalista Lawrence Anthony no dia de sua morte, prestando assim uma última homenagem a um ser que dedicou boa parte de sua vida às espécies em vias de extinção. É dele a seguinte frase contida em seu livro    O Encantador de Elefantes: “Talvez a lição mais importante que aprendi é que não há muros entre os seres humanos e os elefantes, exceto aquele que nós mesmos colocamos, e enquanto não permitimos que não apenas os elefantes, mas todas as criaturas vivas tenham um lugar ao sol, nunca poderemos nos sentir completos.”

Baseados nesse fato insólito Inês Barahona (dramaturgia) e Miguel Fragata (encenador e ator) integrantes do grupo português Formiga Atômica criaram esse belíssimo espetáculo, desde já um dos pontos altos do Festival MIRADA 2022.

O belo teatro de sombras da cena inicial já captura a atenção e a emoção do espectador, sensações essas que só se intensificam quando a narrativa se apresenta como teatro de objetos mostrando de forma extremamente bela e poética a savana africana com sua natureza selvagem e os animais que ali habitam; é desse local que os elefantes partem em fila indiana até a casa de Lawrence.

Apresentada de forma muito delicada a peça retrata de maneira natural para crianças e adultos temas como a morte e a despedida de um ente querido sem provocar tristeza ou depressão.

A cenografia de Maria João Castelo formada por nichos cobertos com véu, belamente iluminada pela luz criada por José Álvaro Correia e a trilha sonora de Fernando Mota completam a excelência da direção de Fragata que também interpreta, com muita delicadeza e até uma contida dose o humor, o narrador dessa emocionante história.

Em tempo: os pequenos presentes na sessão a que assisti acompanharam o espetáculo em silêncio e com muita atenção e se divertiram ao final quando chegaram perto dos objetos usados em cena.

A peça, criada há dez anos, segundo me informaram Inês e Miguel, tem apenas mais uma apresentação no domingo, dia 11 às 11h e é uma pena que não esteja programada para o Extensão Mirada em São Paulo.

Ao final da apresentação me senti muito emocionado e valorizando a vida!

 

10/09/2022

 

 

MIRADA 2022 – PRIMEIRA NOITE

 

Teve início na noite de 09 de setembro de 2022 a maratona dos 38 espetáculos que compõem a programação da sexta edição do Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas, o nosso querido MIRADA, realização do SESC, que após a pandemia volta aos palcos santistas.

A noite inaugural constou de dois espetáculos vindos de Portugal, sendo que o segundo é uma coprodução com o Chile.

VIAGEM A PORTUGAL é uma produção do Teatro do Vestido que transita entre o teatro documental e o teatro de objetos e procura abarcar muitas questões contemporâneas sem se aprofundar em nenhuma delas. Um guia de leitura do espetáculo muito bem feito facilitaria a compreensão das cenas se houvesse tempo de lê-lo antes da apresentação. Legendas em espanhol.

ESTREITO é uma coprodução do grupo português Teatro Experimental do Porto e do chileno Teatro La María. Com dramaturgia bem construída e consistente a peça mostra dois grupos dos dois países que devem se juntar para realizar um espetáculo sobre o Estreito de Magalhães. As diferenças entre as duas culturas são mostradas nas cenas filmadas que precedem a ação no palco e se tornam mais agudas nos ensaios presenciais. Por ordens superiores a encenação oficial será muito diversa daquilo que os grupos se propunham. Humor e ironia permeiam todo o trabalho que trata de temas bastante delicados como a relação entre colonizadores e colonizados, mas que não é o caso, pois os portugueses colonizaram o Brasil e não o Chile e o Chile foi colonizado pelos espanhóis e não por Portugal!! Este fato é fator de distanciamento muito interessante do espetáculo. Muito bem-vinda a presença do ator Pedro Vilela (ex-Magiluth) no elenco português. Legendas em português e em espanhol, dependendo de quem fala!

Nessa noite também foi aberta a instalação thea²trumcorpusmundi.

Os próximos dias com certeza nos reservam muitas surpresas e muitas horas de bom teatro.

VIVA O MIRADA!

VIVA O TEATRO! 

10/09/2022

sexta-feira, 9 de setembro de 2022

TUDO

 

TUDO funciona em TUDO.

A começar pela instigante trama de cada uma das três cenas tão bem urdidas pelo ator, dramaturgo e diretor teatral argentino Rafael Spregelburd (1970-) que ao falar sobre burocracia, arte e religião faz retrato ao mesmo tempo irônico e impiedoso da sociedade contemporânea.

Guilherme Weber faz brilhante tradução cênica do texto de Spregelburd valendo-se da cenografia de Dina Salem Levy e do não menos que magnífico projeto de iluminação de Renato Machado formado por um teto móvel iluminado que complementa a intenção de cada cena. Os figurinos são assinados por Kika Lopes.

Nada disso seria suficiente se Weber não contasse com um elenco de primeira grandeza:

- Vladimir Brichta surpreende com sua versatilidade e o excelente tempo de comédia nas duas primeiras cenas.

- Julia Lemmertz é a poderosa de sempre com sua classe e talento. Sua intervenção na última fábula com a narração das dez pragas do Egito é excelente.

- Claudio Mendes não é revelação para mim, pois já me mostrou seu talento virtualmente em Lições Dramáticas de João Caetano, mas com certeza vai surpreender o espectador paulistano que tem o privilégio de o ver pela primeira vez, uma vez que são raríssimas as aparições do ator carioca em nossos palcos.

- Marcio Vito tem presença marcante tanto como narrador na primeira trama, como o ex-marido na segunda.

- E o que escrever sobre Dani Barros? Pouco presente na cena paulistana Dani brilhou por aqui em 2012 com a estupenda Estamira-Beira do Mundo e com Maria do Caritó no mesmo ano, voltando em 2019 para a rápida temporada de Abujamra Presente, homenagem ao diretor pelo grupo Fodidos Privilegiados, do qual ela fez parte. Para compensar essa ausência Dani nos oferece três intervenções impecáveis em Tudo, muito engraçadas nos dois primeiros atos e intensamente dramática no último.

Não há como não destacar a movimentação cênica do elenco na primeira cena: uma coreografia, eu diria um quase balé, que deve ser creditado em grande parte a Toni Rodrigues, preparador corporal  do grupo.

TUDO é espetáculo imperdível que comprova a excelência do teatro carioca que não vive apenas de comediazinhas como afirmam alguns paulistas ranzinzas. 

TUDO está em cartaz no SESC Bom Retiro às quintas, sextas e sábados às 20h e aos domingos às 18h até 09 de outubro (exceto dias 22/09 e 02/10). NÃO PERCA!! 

09/09/2022

sexta-feira, 2 de setembro de 2022

MUITO PELO CONTRÁRIO

 

Logo no início de Muito Pelo Contrário, Rodrigo, o personagem criado pelo cronista e agora dramaturgo Antonio Prata e interpretado por Emílio Orciollo Netto, explica que é branco, hetero e cis; só não confessa que é ultra conservador, machista e que muito provavelmente votou no inominável nas eleições de 2018.

Seria um personagem chato e previsível não fossem as peripécias inventadas pelo autor, tão bem trazidas à cena pela direção assinada por Victor Garcia Peralta e Vilma Mello e, é claro, tão bem vividas por Orciollo. Diga-se que foi muito sábia a ideia de dar a codireção a uma representante do sexo feminino que imprime assim um olhar da mulher em universo bastante masculino.

Rodrigo é bem casado com Gabi, tem um filho de dois anos e a relação sobreviveu aos duros tempos de isolamento por conta da pandemia da Covid 19. Encarrega-se de alguns afazeres da casa, passa roupa do nenê e sempre que pode olha enternecido para imagens da mulher e do filho; mas a tentação mora lá fora e o contato de trabalho com uma colega o faz pensar em uma aventura casual com ela. Prepara o encontro com muita culpa, tentando destruir todas as provas que o incriminariam perante a esposa, mas ele se depara com uma novidade que faz as coisas mudarem de rumo. Essa é trama básica de Muito Pelo Contrário, cujo desfecho obviamente não vou revelar.

A trama demora um pouco para tomar fôlego se utilizando de alguns recursos cômicos óbvios e primários como, por exemplo, a cena da discoteca onde o casal se conheceu, mas a partir de certo momento as coisas engrenam e a interpretação de Orciollo que tem como grandes aliados seu tempo de comédia e suas expressões faciais, atinge patamar só presente nos grandes atores.

O cenário de Mina Quental é coberto de fraldas e roupinhas de nenê (talvez um pouco pequenas para uma criança de dois anos), caixas de plástico para guardar roupas, brinquedos e toda a bagunça de uma casa com criança pequena. Desenho de luz de Luciano Xavier e figurinos de Mariana Barreto Orciollo, esposa do ator (as meias coloridas de Rodrigo são um barato!).

Muito Pelo Contrário é espetáculo que diverte e faz refletir sobre os relacionamentos conjugais pós-pandemia.

Trata-se de mais uma excelente produção da Morente Forte que desde o retorno do teatro presencial já nos ofereceu obras do quilate de Assassinato Para Dois, Morte e Vida Severina e Longa Jornada Noite Adentro. A única lástima é que a produtora insiste nos programas só acessíveis por QR code. 

MUITO PELO CONTRÁRIO está em cartaz no Teatro Unimed de 02/09 a 09/10 às sextas e sábados às 21h e aos domingos às 18h. 

02/09/2022

 

sábado, 27 de agosto de 2022

MOSCOU PARA PRINCIPIANTES

Foto de MaGon

Quem lê o texto da peça Moscou Para Principiantes de Aline Filócomo pode avaliar a complexidade do mesmo para quem pretende fazer a sua tradução cênica. Aline resolveu tomar para si própria o desafio e dirigiu a peça ora em cartaz no TUSP de maneira extremamente criativa e também bastante complexa, algo realmente surpreendente quando se sabe que se trata, praticamente, do primeiro trabalho da atriz como dramaturga e diretora.

Revelar detalhes dessa excelente e instigante montagem seria dar uma de desmancha prazer, não permitindo ao futuro espectador as surpresas que o seu desenrolar oferece. Como um jogo de quebra cabeças, as peças vão se encaixando por meio das ótimas performances das três atrizes que interpretam personagens simplesmente denominadas como “a da esquerda”, “a do meio” e “a da direita”.

A presença do teatro intimista de Tchekhov através das inúmeras referências à peça As Três Irmãs se mescla com aquele de Beckett temperado com pitadas do humor de Ionesco, ambos representantes do assim chamado teatro do absurdo. Aline sabe fazer essa mistura de maneira harmoniosa e saborosa.

Tanto o texto como a encenação de Moscou Para Principiantes exigem muitíssimo de suas intérpretes e Paula Arruda, Natacha Dias e Rita Grillo estão não menos que brilhantes em suas milimétricas intervenções.

O cenário e a iluminação de Marisa Bentivegna acompanham e complementam “vertiginosamente” a narrativa proposta pela encenadora.

Foto de MaGon

Os detalhes da encenação exigem muito do olhar, da atenção e da inteligência do espectador que se piscar o olho durante a avalanche de falas e de situações é capaz de perder o fio da meada. Mas existe o fio da meada? Moscou Para Principiantes não é para principiantes! 

MOSCOU PARA PRINCIPIANTES está em cartaz no TUSP até 18 de setembro de quinta a sábado às 20h e aos domingos às 18h. 

27/08/2022

 

segunda-feira, 22 de agosto de 2022

DESMASCARADOS

 

Foto de Maria Clara Diniz 

O que Oswald de Andrade pensaria do Brasil de hoje e como estariam se comportando seus personagens neste país ainda mais descontrolado do que há 85 anos, quando O Rei da Vela foi escrito? A Bendita Trupe não teve dúvidas trazendo o homem de volta para ele se indignar e dar a sua opinião.

O espetáculo Desmascarados revela no seu subtítulo ao que veio: Uma (des)homenagem aos Reis da Vela do Século XXI. Trata-se, sim, de uma (des)homenagem, pois como seria possível louvar Abelardos e Heloisas de Lesbos que se tornaram ainda mais agressivos e predadores?

O espetáculo é resultado de muita pesquisa sobre as duas épocas (1937 e 2022), sobre o modernismo e a semana de 22, além, especificamente, sobre Oswald de Andrade e O Rei da Vela. Além disso o grupo consultou especialistas de circo, de circo-teatro e de outras áreas interessantes a este vasto painel ora apresentado. (O programa da peça apresenta em detalhes o processo de concepção de Desmascarados).

A guerreira Johana Albuquerque conduziu o processo colaborativo que resultou no texto do espetáculo que tem sua sempre criativa e transgressora tradução cênica.

A encenação é uma festa antropofágica e o elenco parece se divertir muito, principalmente, na cena que demole e reconstrói o segundo ato do original. Da Ilha de Paquetá de 1937 o grupo foi passar as férias no Amazonas de 2022 e o americano Mr. Jones (Fernanda D’Umbra impagável!) continua a comandar o business. Remodelados aqui comparecem Dona Cesarina (Cris Lozano), Dona Poloquinha (Silvia Suzy), João dos Divãs (Marun Reis), Totó Fruta do Conde (Jaime Brando, curiosamente sem o gestual efeminado do original) e. é claro, Abelardo (Marcelo Villas Boas ótimo) e Vera Bonilha (Heloisa).

A destacar a participação de Sérgio Pardal como o revolucionário Pinote, de Joca Andreazza como o Bufão do prólogo da encenação e como o intragável Belarmino e a brilhante composição do camaleônico Luciano Gatti como o falecido/ressuscitado Oswald de Andrade.

As músicas são tocadas ao vivo por um trio de músicos sendo que dois deles também participam de algumas cenas.

É muito bem-vinda a participação de atores e técnicos bolsistas que foram selecionados para o projeto.

A ficha técnica inclui respeitáveis profissionais como Julio Dojscar (cenografia), Aline Santini (desenho de luz), Silvana Marcondes (deliciosos figurinos), Pedro Birenbaum (direção musical), Renata Melo (orientação corporal) e Leopoldo Pacheco (visagismo). Como se pode notar a produção não poupou esforços para a realização do espetáculo dignamente regido por Johana Albuquerque. 

DESMASCARADOS está em cartaz no Teatro de Contêiner até 18/09 com sessões de quinta a sábado às 20h e aos domingos às 19h.

22/08/2022

sábado, 20 de agosto de 2022

ORFÃS DE DINHEIRO

 

Inês Peixoto – Uma atriz em estado de graça

Como é bom ver uma atriz com pleno domínio de seu ofício. Inês Peixoto é plena tanto nos momentos marcantes da peça como nos mínimos detalhes como ao sacudir a água do remo ao tirá-lo da água ou ao tirar o tamanco do pé enquanto espera o seu Mike que na verdade nunca virá. É isso, Inês é PLENA, e é um verdadeiro regalo para a alma vê-la em cena.

O espetáculo reúne três cenas todas elas em torno de um barco que foi roubado pela deliciosa personagem da primeira história, uma mulher que foi vendida para a prostituição ainda menina, mas que soube se vingar de seus algozes. A segunda história mostra uma mulher refugiada com seu bebê no colo à frente de funcionário do serviço de imigração do país no qual pretende entrar. A terceira cena tem toques de humor e trata de uma empregada doméstica solitária que sonha em ter uma casa com marido e máquina de lavar roupa, as alterações no semblante dela quando espera o homem que a engravidou enquanto as luzes se apagam lentamente ficarão para sempre gravadas na memória dos espectadores que aplaudem entusiasticamente a grande atriz nos agradecimentos.

As três personagens criadas por Inês Peixoto são mulheres carentes/dependentes de dinheiro que têm de se submeter às perversas regras da sociedade para poder sobreviver.

Trata-se de espetáculo de rara delicadeza dirigido por Eduardo Moreira de forma simples, mas bastante requintada, tendo em seu apoio o cenário constituído apenas pela canoa projetada por Taísa Campos que é banhada de forma suave pela luz desenhada por Rodrigo Marçal. A trilha sonora assinada por Tiago Pereira (filho de Inês) inclui a belíssima Mortal Loucura de José Miguel Wisnik sobre poema de Gregório de Matos que Inês entoa lindamente na transição da primeira para a segunda cena. A sempre incrível Babaya é responsável pela preparação vocal da atriz.

Já escrevi, mas não custa repetir: Orfãs de Dinheiro é um precioso momento na carreira de Inês Peixoto que brilha no Grupo Galpão desde que nele ingressou em 1992 para interpretar a Sra. Capuleto no sempre lembrado Romeu e Julieta. Por se tratar de um monólogo o público tem o privilégio de apreciar o talento de Inês de maneira integral. Garanto que isso não é pouco!

A única lástima é que o programa é acessível apenas por QR code e, além disso, não se permite a impressão de forma caseira, impossibilitando que um pesquisador tenha pelo menos a ficha técnica do espetáculo para futuros estudos.

 

ORFÃS DE DINHEIRO está em cartaz no Auditório do 3º andar do SESC Pinheiros até 10 de setembro de quinta a sábado às 21h.

ABSOLUTAMENTE IMPERDÍVEL

 

Fotos de Arnaldo D’Ávila

 

20/08/2022