sábado, 25 de novembro de 2023

CURTUME, DIAS SECOS INUNDADOS DE ACÁCIA

 

        As tranças de uma menina no saguão do teatro conduzem o espectador até ela, que está a raspar um fulão de curtume com uma pedra.

        A partir daí acompanhamos a trajetória dessa personagem por meio da interpretação, sempre visceral, da grande atriz Ester Laccava.

        Na trama, densa e distópica, criada pelo jovem dramaturgo Denizart Fazio, uma mulher revela sua vida em três momentos:

-  Como menina que brinca próxima a um curtume.

- Como mulher, que ao perder o emprego de faxineira, fica angustiada por não ter o que dar de comer aos seis filhos e procura emprego no curtume.

- Como velha que conversa com sua neta, ao mesmo tempo que responde a uma investigação feita por um policial sobre a morte do dono do curtume.

        O clima denso e distópico proposto pelo autor é perfeitamente traduzido cenicamente pela diretora Ester Laccava, auxiliada pelo cenário também criado por ela, pelo ambiente de luz e imagens criado por Mirella Brandi e pela poderosa trilha sonora com músicas originais de Mueptemo, nome misterioso que já havia criado a trilha de Ossada, outro espetáculo memorável da atriz.

        Laccava, como excelente intérprete que é, lança mão de seu talento e de seus penetrantes olhos verdes para hipnotizar a plateia ao denunciar a violência praticada com as mulheres e ao revelar uma das “maneiras” de combater essa violência.

        A notar também que Ester se utiliza de recursos épicos ao narrar algumas partes da história.

        Palmas para a versatilidade da atriz!

Ester, com o autor Denizart Fazio ao fundo

        CURTUME está em cartaz no Espaço Cênico do SESC Pompeia até 15/12 com sessões de terça a sexta feira sempre às 20h30.

        NÃO DEIXE DE VER!

        25/11/2023

 

       

       

       

 

sexta-feira, 10 de novembro de 2023

CAPIROTO

 

Foto de Ernane Pinho

       - Boa noite. Eu sou o Capiroto e estou aqui para lhes dizer umas verdades: parem de me culpar por todo mal que as senhoras e os senhores fazem para a humanidade e assumam suas perversidades!

       O espetáculo escrito e dirigido por Rodrigo França e interpretado por Leandro Melo poderia começar assim e o bonito é que eles provam por A mais B que o Capiroto está com a razão ao se revoltar por ser responsabilizado pelos males do mundo.

O texto é quase didático (sem jamais ser chato) ao mostrar como a sociedade e as religiões criaram mitos que se prestam a perpetuar o poder daqueles que já o detém, mantendo os oprimidos como eternos humilhados, ofendidos e servis, como tão bem já demonstrou Dostoievski.    

 O tema é árido, mas a encenação assinada pelo próprio autor é tratada com leveza e até certo humor, para isso muito contribui a excepcional interpretação de Leandro Melo que dirige com muita elegância as acusações diretamente ao espectador sem agredi-lo, mas fazendo-lhe refletir sobre os fatos. Colaboram também para a grandeza da encenação o cenário de Clebson Prates, a iluminação de Pedro Carneiro, a trilha sonora de João Vinicius Barbosa e a importante arte digital de Akueran.

Foto de Adriano Escanhuela

       Quem já viu Leandro Melo nos diversos musicais em que participou (ele acaba de interpretar Lennie Dale em Elis – A Musical que estava em cartaz na Sala Nydia Licia do Teatro Sérgio Cardoso) sabe do seu talento como dançarino e cantor, mas só irá descobrir a sua potência e versatilidade como intérprete ao assistir Capiroto.

       É lastimável elogiar e querer recomendar um espetáculo quando ele já saiu de cartaz (quarta-feira, dia 08/11, foi a última apresentação), mas fica o alerta: se voltar ao cartaz, não perca CAPIROTO, um dos mais instigantes espetáculos apresentados nos palcos paulistanos neste ano.

Descubra de onde vêm os males que afligem nosso planeta e deixe o diabo em paz!

 

10/11/2023

      

 

domingo, 5 de novembro de 2023

A VOVÓ E A BOSSA NOVA no TEATRO POPULAR DO SESI

 

Dois espetáculos gostosos de assistir estão em cartaz no palco do Teatro do SESI, com o fim de alguns percalços que parecem ter sido praga do injustiçado Osmar Rodrigues Cruz, que tanto fez por aquele espaço e hoje está completamente esquecido.

VOZ DE VÓ é espetáculo infanto juvenil (mas que agrada a qualquer idade) escrito e dirigido por Sara Antunes que trata da memória e a perda dela por uma vó (Clarisse Derziê Luz) que não consegue encontrar sua casa. Seus netos Tito e Bento (em dois tempos: crianças e adultos) acompanham a saga da vovó à procura da casa.

Delicadamente interativa a peça encanta crianças e adultos com os músicos/atores Gui Calvazara (Bento) e Demian Pinto (Tito) e a deliciosa participação dos meninos Benjamin (Bento) e Antônio (Tito), filhos de Sara e de Vinicius de Oliveira.

Produção caprichada com excelente direção de arte de Analu Prestes.


BOSSA NOVA CABARET BAR é o espetáculo adulto que ocupa o palco do Teatro do SESI com muita música e muito humor. É a volta do Circo Grafitti após 15 anos. É um musical na forma das antigas revistas (tem até vedete fazendo número de plateia!) com músicas da bossa nova permeadas por esquetes de humor que introduzem a música que vem a seguir.

O elenco é ótimo e canta muito bem. Os músicos também são ótimos. Direção musical primorosa de Pedro Paulo Bogossian, que também é o pianista do grupo.

Rosi Campos encarrega-se da maior parte dos textos falados, mas também se sai bem cantando (sua interpretação de Eu e a Brisa é muito bonita, apenas prejudicada pelo figurino de Julieta para cena que ela faz a seguir).

Helen Helene em retorno muito bem-vindo aos nossos palcos brilha quando dá vazão ao seu lado humorístico.

 

Voz de Vó e Bossa Nova Cabaret Bar são espetáculos bastante apropriados ao público para o qual o Teatro Popular do SESI pretende se dirigir. Para a formação de público é importante apresentar espetáculos de fácil entendimento, sem, porém, abrir mão da qualidade tanto da forma como do conteúdo e esses dois espetáculos cumprem totalmente esses quesitos.

 

VOZ DE VÓ está em cartaz até 17/12 com sessões às quintas e sextas (11h e 15h) e sábados e domingos (15h);

 

BOSSA NOVA CABARET BAR está em cartaz até 04/02/2024 de quinta a sábado (20h) e domingos (19h)

 

Ingressos gratuitos para os dois espetáculos.

05/11/2023

quinta-feira, 26 de outubro de 2023

GUARÁ VERMELHA

 

No início de 2019, quando revi Ledores de Breu, o querido Dinho Lima Flor me recomendou vivamente o livro O Voo da Guará Vermelha de Maria Valéria Rezende (1942), e como recomendação do Dinho não é coisa que se descarta, comprei, li e adorei o romance que envolve o trabalhador e contador de histórias Rosálio e a puta Irene. Tive a certeza que um dia essa história seria transformada em uma peça de teatro da Cia. do Tijolo e isso acaba de acontecer. A peça está em cartaz no Sesc Avenida Paulista desde 29/09.


Dirigido com muito amor e muito talento por Dinho, o espetáculo tem como protagonistas os excelentes Karen Menatti como Irene e Rodrigo Mercadante como Rosálio, mas como todo bom teatro de grupo, a encenação permite excelentes momentos para todo o elenco, inclusive para os músicos.

Thaís Pimpão é a engraçada e humana Anginha, companheira de zona de Irene; Danilo Nonato deslumbra com suas mirabolantes coreografias; May Tuti encanta em vários momentos com sua bela voz e brilha como Floripes ao lado de João dos Ais vivido por Jonathan Silva, outra linda voz, também autor das canções do espetáculo; tem também Lucas Vedotto e Artur Mattar em ótimas participações e a grande surpresa que é a exuberante Odilia Nunes, atriz pernambucana, responsável por grandes e engraçados  momentos do espetáculo. Importante mencionar também a participação dos músicos Maurício Damasceno, Marcos Coin e Nanda Guedes. Sem esquecer da presença marcante da autora, representada por um grande boneco que enfeita a cena em vários momentos.

A direção musical é assinada por William Guedes.

Mesmo tratando/denunciando importantes assuntos sociais que levam à reflexão, como analfabetismo, prostituição e desigualdade social, o espetáculo é PURA EMOÇÃO e é difícil conter as lágrimas em vários momentos.

O mote principal da peça é a relação afetiva entre Rosálio e Irene, mas as histórias que ele conta a ela, permeiam toda a ação dessa belíssima montagem da Cia. do Tijolo que prova que na presença da arte você sempre terá tempo.

Guará Vermelha deveria sair de cartaz no dia 29/10, mas teve sua temporada prorrogada por mais uma semana, até 05/11 com sessões de quarta a sábado às 19h30 e aos domingos às 18h.

CORRA PARA VER, É LINDO DEMAIS!

 

26/10/2023

terça-feira, 24 de outubro de 2023

INSTITUTO BRASILEIRO DE TEATRO – IBT

 

São cinco jovens...

São cinco jovens com pouco mais de trinta anos...

São cinco jovens simpáticos, bonitos e receptivos...

São cinco jovens que se apresentam pelos primeiros nomes: Elisa, Samya, Guto, Oliver e Zé...

São cinco jovens sonhadores, mas também empreendedores, aos quais cabe a comparação com a girafa: cabeças com sonhos nas alturas, mas os pés no chão.

São cinco jovens que com seus delírios de realizar espetáculos populares, formar público, preparar artistas e de perpetuar a memória do teatro, SIMPLESMENTE adquiriram um prédio de 11 andares no início da Avenida Brigadeiro Luís Antônio,277, às margens da Avenida 23 de Maio, o qual já tem amplas salas de ensaio em alguns andares, um espaço interessantíssimo no primeiro andar onde anteriormente funcionou uma danceteria e um mirante de tirar o fôlego no topo.  O restante do prédio está em obras, prognosticando um centro cultural da maior importância para a cidade de São Paulo.


No momento em que vemos uma geração indo embora: Antunes, Zé Celso, César Vieira; é estimulante ver gente jovem reunida, cabelo ao vento, seguindo o exemplo de nossos pais naquilo que eles tiveram de talento e criatividade para manter viva a chama do teatro brasileiro.

SÃO CINCO JOVENS...

VIVA O IBT!

VIVA O TEATRO!

 

        24/10/2023

domingo, 22 de outubro de 2023

AGNES DE DEUS

 

Foto de Ronaldo Gutierrez

Existem peças cujo protagonismo é dividido entre todo o elenco, fato que cria responsabilidade enorme para todos os/as intérpretes.

Agnes de Deus do dramaturgo norte-americano John Pielmeier (1949) insere-se nesse tipo de peça e não é à toa que suas três personagens já foram vividas por grandes atrizes:

A Dra. Martha teve Elisabeth Ashley na Broadway, Jane Fonda no cinema, Walderez de Barros em São Paulo e Yara Amaral no Rio de Janeiro.

A Madre Miriam teve Geraldine Page na Broadway, Anne Bancroft no cinema, Cleyde Yáconis em São Paulo e Nicette Bruno no Rio de Janeiro.

Agnes teve Amanda Plummer na Broadway, Meg Tilly no cinema, Clarisse Abujamra em São Paulo e Lucélia Santos no Rio de Janeiro.

Incluindo-se nesse grupo de ouro, a atual montagem da peça dirigida por Murillo Basso/Yara de Novaes, tem as excelentes Clara Carvalho (Dra. Martha), Mariana Muniz (Madre Miriam) e Gabriela Westphal (Agnes) no elenco.

A direção da peça optou por encenação sóbria, embelezada pela magnífica moldura que é a iluminação de Aline Santini, para contar essa história sobre a doutora que procura descobrir as causas do assassinato de um bebê cometido pela freira chamada Agnes, que pertence a uma irmandade cuja madre superiora afirma que o bebê foi gerado por milagre, tal qual, segundo ela,  aconteceu com a Virgem Maria.

O embate entre a lógica defendida pela doutora e a fé por parte da Madre é a base da peça e Clara e Mariana o realizam com seus habituais talentos. As intervenções de Agnes mostrando seus traumas são brilhantemente defendidas por Gabriela Westphal, jovem atriz, equiparada em talento às suas veteranas companheiras de cena. Destaque para a expressão corporal de Mariana Muniz/Madre nas cenas mudas em que ilustra suas dúvidas sobre o que está acontecendo, enquanto Martha e Agnes dialogam.

A tradução do texto não é creditada na ficha técnica constante do programa.

A sobriedade do espetáculo sugerida por corpos na penumbra, focos de luz e cortinas envolvendo certas cenas é complementada pelos discretos figurinos assinados por Marichilene Artisevskis e pela cenografia minimalista de Mira Andrade.

Agnes de Deus é excelente teatro de texto interpretado por grandes atrizes, que merece uma visita ao Teatro Aliança Francesa que infelizmente, está em seus últimos dias de glória. Essa montagem tem a triste função de ocupar pela última vez um palco que desde 1964 vem abrigando grandes atrizes, atores e diretores em espetáculos que marcaram a história do teatro brasileiro.

AGNES DE DEUS está em cartaz no Teatro Aliança Francesa até 03 de dezembro, com sessões às sextas e aos sábados às 20h e aos domingos às 18h. 

22/10/2023

 

 

 

sábado, 21 de outubro de 2023

O VIRA-LATA

 

        Aqueles privilegiados paulistanos que assistiram Tchekhov (2013/2014) e Nuon (2016/2017) do grupo curitibano Ave Lola, têm conhecimento do carinho e do talento com os quais a diretora Ana Rosa Tezza trata a forma e o conteúdo de suas encenações.

        O Ave Lola ainda deve aos palcos paulistanos sua primeira e famosa montagem [O Malefício da Mariposa (2012)] e as mais recentes [Manaós (2019)] e [Cão Vadio (2021)], mas eis que chega, de surpresa, para uma temporada relâmpago na Caixa Cultural, sua última produção, O Vira-Lata.

        O Vira-Lata é o que se convencionou chamar peça de família, ou seja, aquela que atinge tantos os pequeninos como mamães, papais, vovós e vovôs e trata de um assunto sério que é a violência familiar, tanto com semelhantes como com animais.

        De maneira lúdica, a peça do dinamarquês Soren Valente mostra o relacionamento entre um homem, uma mulher e um cachorro.

Ana Rosa optou por colocar palavras inteligíveis apenas na narração, enquanto as personagens se relacionam em uma língua imaginária criada durante os ensaios da peça, isso torna o belíssimo gestual do elenco criado pela coreógrafa Ane Adade, a forma de fazer a trama chegar até o público; para tanto Ana Rosa contou com o ótimo elenco formado por Helena Tezza (A Mulher), Eduardo Giacomini (O Homem) e Cesar Matheus (O Vira-Lata).

Um delicioso clima clownesco e de desenho animado permeia todo o espetáculo, que conta ainda com os comentários musicais executados ao vivo por Arthur Jaime e Bruno Monte Serrat.

A cenografia (simples, mas eficiente) é assinada pela trupe e a linda iluminação tem a marca de Beto Bruel. Figurinos de Eduardo Giacomini.

A peça estreou quase sem divulgação na Caixa Cultural, que não apresentava espetáculos desde a pandemia, o resultado é que um pequeno público compareceu nos dois primeiros dias das apresentações, o que é uma pena, pois trata-se de espetáculo delicioso e necessário.

A única criança presente no espetáculo deu o maior presente para o grupo: durante o bate-papo após o espetáculo a diretora perguntou a ela:

-Você gostou do espetáculo?

E a resposta da menina:

- Não gostei ... (silêncio)... EU ADOREI!

Valeu, Ave Lola! Queremos vocês mais vezes por estes palcos paulistanos!

O VIRA-LATA está em cartaz na Caixa Cultural de quinta a domingo às 15h com ingressos gratuitos só até a próxima semana (29/10). Corra e leve as crianças, seu coração para se emocionar e seu cérebro para refletir. 

21/10/2023