domingo, 27 de abril de 2025

PRIMAVERA CEGA

        Há um DVD de Chico Buarque intitulado “No País da Delicadeza Perdida”. Igor Iatcekiw, Alejandra Sampaio e Malú Bazán resgatam essa delicadeza no espetáculo “Primavera Cega” em cartaz na “Associação Cultural Zona Franca”, aconchegante espaço teatral administrado pela “Velha Companhia” na rua Almirante Marques de Leão no Bixiga.

    Em um longo processo de maturação que durou quase dez anos Igor foi lapidando, não sem dor, suas memórias junto à sua mãe. Temas áridos e graves como homofobia, machismo e doença de Alzheimer são poeticamente tratados e apresentados com sensibilidade e humanidade contagiantes com a colaboração “suave” das duas diretoras Malú e Alejandra. O resultado exala um afeto que é estendido para o público.

As diretoras Alejandra e Malú

    Não há revolta em cena, nem gritos de indignação, tudo acontece serenamente como na bela cena da construção da casinha para o coelho onde discretamente o público fica sabendo que o pai não aceita a homossexualidade do filho ao impedir que ele coloque uma flor no jardim da casinha. São sutilezas desse tipo que permeiam todo o espetáculo. 

    Kiko Marques e Denio Maués colaboraram na provocação dramatúrgica.

    O cenário minimalista assinado pelas diretoras é belamente iluminado por Adriana Dham.

    E é estranho observar que um ator com o talento de Igor, formado no TUCA em 2006, só faça sua estreia profissional quase vinte anos depois. Antes tarde do que nunca! Queremos você mais vezes em nossos palcos, Igor Ivan!


    Ah! Muito gostoso ver o nome da Cristina Cavalcanti, nossa querida Tina, na identidade visual do projeto, que ela fez lá do outro lado do Atlântico. Saudades sempre! 

    PRIMAVERA CEGA está em cartaz na Zona Franca até 12 de maio com sessões aos sábados e às segundas às 20h e aos domingos às 18h


    27/04/2025


sábado, 26 de abril de 2025

NEBULOSA DE BACO



    “A verdade, onde está a verdade?” questionava Luigi Pirandello (1867-1936) em toda sua obra. 

    Em um brilhante exercício de meta teatro, o dramaturgo curitibano Marcos Damaceno coloca duas atrizes (de verdade!) interpretando duas atrizes que interpretam duas personagens. Em um emaranhado de eu-ela, ela-eu, você-ela, ela-você, ele-eu Damaceno tece uma trama deliciosa de acompanhar, nunca revelando onde está a verdade, que na verdade ninguém sabe onde está. O autor poderia definir ficcionalmente a verdade da trama, mas fiel ao estilo pirandelliano não o faz.

    A proposital repetição das situações poderia soar cansativa, mas a presença de duas grandes atrizes em cena torna o espetáculo extremamente prazeroso.

    O talento de Rosana Stavis é bastante conhecido do público paulistano, mas mais uma vez ela nos surpreende interpretando uma espécie de ensaiadora de uma atriz que prepara a personagem de uma mulher que dialoga com seu padrasto/amante. Em certo momento faz às vezes do padrasto, para dar as deixas para a atriz. De lambuja, Rosana empresta sua bela voz para cantar “I Started a Joke” no final do espetáculo.

    “Ah, se eu tivesse visto que a piada era comigo” diz a canção dos Bee Gees.

    Helena de Jorge Portela é a grande surpresa do espetáculo. Dotada de grande e bela presença cênica e potente voz, ela interpreta a atriz que está insegura com a composição de sua personagem e que não consegue chorar na cena em que isso se faz necessário.

    Os diálogos entre as quatro (ou seis??) figuras em cena são saborosíssimos e Rosana e Helena os interpretam magnificamente.

    A direção de Damaceno é totalmente focada no trabalho das atrizes com a colaboração de Beto  Bruel e seu sempre belo desenho de luz.

    O enigma de uma nebulosa e o mito que Baco representa a dualidade humana entre controle e entrega (conforme dados do programa impresso) justificam o título do espetáculo.

    Depois da experiência radical com a bem sucedida “A Aforista”, a Cia. Stavis-Damaceno nos oferece este belo exercício de meta teatro que irá agradar a todos, mas principalmente aqueles habituados com o linguajar teatral. 

    “Toda atriz tem que brilhar” diz o texto em certo momento e Rosana e Helena o fazem, iluminando cada espectador com seus talentos.


    NEBULOSA DE BACO está em cartaz no CCBB até 08 de junho, com sessões às quintas e sextas às 19h e aos sábados, domingos e feriados às 17h.


    26/04/2025


TRANSFIGURATION


O dicionário define transfiguração como o “ato de (se) transformar, metamorfose/alteração da figura, das feições, da forma”.

E é exatamente isso que o multiartista (pintor, escultor, fotógrafo e performer) Olivier de Sagazan (1959) faz diante dos olhos hipnotizados do público que em profundo silêncio acompanha sua performance.

Vestido com um sóbrio terno, ele senta-se diante de potes com tinta e os elementos naturais (terra, fogo, ar e água) e inicia as metamorfoses tornando-se um porco nazista, uma mulher nua acuada e tantas outras figuras que muitas vezes lembram personagens saídas de um quadro de Francis Bacon. O público atônito acompanha essas transformações realizadas apenas com a manipulação dos materiais disponíveis.

Três grandes placas metálicas móveis situadas atrás do artista provocam barulho ensurdecedor ao receberem materiais jogados por ele. Essas placas vão se tornando uma tela viva, realizada diante do incrédulo público. Enquanto isso, o artista vai abandonando seu terno, que fica totalmente inutilizado ao final da performance.


Um visagismo radical, ou melhor, visagismos em transformação poderia ser a definição desse trabalho perturbador. A experiente visagista Louise Helène estava sentada ao meu lado e saiu do espetáculo visivelmente emocionada com aquilo que viu.

Artaud, Grotowski e Bacon dizem presente nessa inusitada performance, experiência totalmente nova, mesmo para um velho com 81 anos de idade e mais de 60 como espectador.

São só mais cinco sessões até o dia 04/05 no SESC Belenzinho. Sexta e sábado (19h) e domingo (17h).

CORRA!


26/04/2025


segunda-feira, 21 de abril de 2025

RESTINGA DE CANUDOS


TIJOLO CONTA ANTONIO CONSELHEIRO

Assim como o Arena tinha a série Arena Conta..., a Cia. do Tijolo faz algo parecido desde sua fundação em 2008 com uma trajetória digna e consistente. Vou chamar essa trajetória de TIJOLO CONTA:

- 2008 – TIJOLO CONTA PATATIVA DO ASSARÉ: Cante Lá Que Eu Canto Cá/Concerto de Ispinho e Fulô.

- 2013 - TIJOLO CONTA GARCIA LORCA: Cantata Para Um Bastidor de Utopias.

- 2014 – TIJOLO CONTA PAULO FREIRE: Ledores de Breu

- 2016 - TIJOLO CONTA DOM HELDER CÂMARA: O Avesso do Claustro.

- 2022 – TIJOLO (RE)CONTA PAULO FREIRE: Corteja Paulo Freire.

- 2023 – TIJOLO CONTA MARIA VALERIA REZENDE: O Voo da Guará Vermelha.

- 2025 – TIJOLO CONTA ANTONIO CONSELHEIRO: Restinga de Canudos.


A arte tem de ter algo que me tira do chão e deslumbra.

(Ferreira Gullar)

Pura arte! “Restinga de Canudos” surpreende, deslumbra e nos tira do chão desde a primeira cena quando se adentra o espaço cênico e o grupo demostrando garra e uma alegria contagiante entoa uma das belas canções de Jonathan Silva que fazem parte do espetáculo.

A dramaturgia de Dinho Lima Flor e Rodrigo Mercadante, resultado de alguns anos de pesquisa, procura revelar o que há ainda de vida, naquela cidade submersa nas águas do açude de Cocorobó que um dia foi Belo Monte e que buscou uma utopia liderada por Antônio Conselheiro. Lembrei de um trecho da belíssima “Futuros Amantes” de Chico Buarque:

“E quem sabe, então

Belo Monte será

Alguma cidade submersa

Os escafandristas virão

Explorar sua casa

Seu quarto, suas coisas

Sua alma, desvãos


Sábios em vão

Tentarão decifrar

O eco de antigas palavras

Fragmentos de cartas, poemas

Mentiras, retratos

Vestígios de estranha civilização”

Além de muito belo e lúdico, o espetáculo é bastante didático fazendo uma verdadeira linha do tempo desde o início do século até 1897, ano da destruição de Canudos. Esta cena e algumas outras são comandadas por duas professoras deliciosamente interpretadas por Karen Menatti e Odilia Nunes. Essas duas atrizes são presenças marcantes em todo o espetáculo.

Odilia Nunes

Karen Menatti

Outro achado dessa montagem é o embate de Conselheiro com Euclydes da Cunha, autor do livro “Os Sertões” que descreve a saga de Canudos. Numa cena memorável Conselheiro (Dinho Lima Flor) e Euclydes da Cunha (Rodrigo Mercadante) expõem seus pontos de vista em um duelo verbal eletrizante.

A energia de todo o elenco irradia para a plateia e é inegável o grande talento de Karen, Odilia, Jonathan, Rodrigo e Dinho que também dirige o espetáculo.

Tudo funciona neste magnífico trabalho da Cia. do Tijolo. A sensível direção de Dinho Lima Flor harmoniza a atuação do elenco que interpreta e canta muito bem acompanhado por um excelente grupo de músicos, com o cenário criado pelo grupo e Douglas Vendramini, com os desenhos de Artur Mattar projetados com um antigo projetor de slides. Destaque também para a movimentação dos atores (Viviane Ferreira) e a manipulação dos bambus.

Importantíssima também a intervenção da Professora Silvia Adoue esclarecendo muita coisa sobre o assunto.

Diante de tantas qualidades, não hesito em afirmar que até agora "Restinga de Canudos" é o melhor espetáculo apresentado nos palcos paulistanos nesta boa temporada de 2025. 

Dinho Lima Flor

A temporada no SESC Belenzinho termina no próximo domingo sempre com casas lotadas. Pela importância e pela beleza do espetáculo, seria MUITO IMPORTANTE, que o SESC prorrogasse a temporada por mais algumas semanas.

Uma única ressalva: o espetáculo dura quase três horas sem intervalo. Um pequeno intervalo para as necessidades do público seria bastante útil.

Sextas e sábados: 20h/Domingos: 17h

IMPORTANTE, NECESSÁRIO E ABSOLUTAMENTE IMPERDÍVEL

21/04/2025


domingo, 20 de abril de 2025

ELISA EM FUGA


    “Virginius (Narrativa de um advogado)” é um conto de Machado de Assis (1839-1908) escrito em 1864, que serve de base para o segundo ensaio sobre o terror de José Fernando Peixoto de Azevedo para a “Sociedade Arminda”. O primeiro ensaio aconteceu em 2023 a partir de “Pai Contra Mãe”, outro conto de Machado de Assis.

    Em um espetáculo de uma hora, Azevedo utiliza os primeiros vinte minutos para denunciar o espírito preconceituoso e escravagista ainda presente nos dias de hoje por meio de uma Elisa contemporânea ensanguentada que teve sua tia presa e torturada em 1974 – auge da repressão da ditadura - ao ser confundida com um estudante.

O restante do espetáculo concentra-se na apresentação do conto quase literalmente. 

    Thaina Muniz revela muita garra e muito talento tanto na narração como na interpretação do conto, acompanhada por Samurai Cria que a persegue com uma câmera durante todo o espetáculo e pela potente trilha sonora executada ao vivo por Agá Péricles. As imagens captadas por Cria são editadas ao vivo por Soma resultando em visual poderoso que reflete o terror pretendido pela encenação. 


    Com tais elementos Azevedo cria mais um espetáculo cujas características lhe são comuns: uma fusão perfeita da atuação com cenas captadas ao vivo. 

    O conto de Machado de Assis é repleto de divagações do advogado, como também de diálogos entre ele e outros personagens. A figura de Elisa aparece pouco, no entanto na versão de Azevedo a atriz concentra todos os personagens, algo que dá muita força para o resultado final. Enquanto retira o sangue que lhe cobre o corpo a atriz pede para o público ler o julgamento de Julião, o assassino.

    A excepcional interpretação de Thaina Muniz reforça a grandeza deste importante trabalho de Azevedo, onde o recado é claro: O TERROR É BRANCO.


    ELISA EM FUGA – segundo ensaio sobre o terror está em cartaz no Ágora Teatro até 04 de maio de quinta a sábado às 20h e domingos às 19h.

    ATENÇÃO: Nos dias de chuva, as obras do metrô estão ocasionando um alagamento na rua do teatro que impede a chegada no mesmo. A melhor e única opção é chegar pela Av. Brigadeiro e ir a pé pela passagem ao lado da Pizzaria Moraes.


    19/04/2025


segunda-feira, 14 de abril de 2025

DOIS PAPAS

 

    Originalmente “Dois Papas” é um romance do neozelandês Anthony McCarten. Ele mesmo fez o roteiro do filme homônimo e a adaptação teatral, cuja tradução para o português de Rui Xavier está em cartaz no SESC Santo Amaro.

    A peça mostra os encontros do Cardeal argentino Jorge Bergoglio (1936-), eleito Papa Francisco em 2013 com o então Papa Bento XVI (1927-2022), sendo Papa de 2005 a 2013. O que há de verdade e o que há de ficção nesses encontros restará como um segredo do escritor.

    A consistente dramaturgia é dividida em quatro partes:

        - Na primeira toma-se conhecimento das ideias e intenções do Papa Bento por meio de seu encontro com Irmã Brigitta.

        - Na segunda usa-se o mesmo recurso para apresentar Cardeal Bergoglio que dialoga com Irmã Sofia.

        - O primeiro encontro entre as duas figuras acontece na terceira parte onde florescem os vários conflitos em virtude da diferença de opiniões entre os dois.

        - Na quarta e última parte os encontros são mais amigáveis e levam ao desfecho onde Bergoglio torna-se Papa Francisco.


    A bela tradução cênica de Munir Kanaan é marcada pelo foco no trabalho dos atores e pela grande atenção nas cores: o branco na arquitetura cenográfica de Eric Lenate que pode atingir outras nuances coloridas quando iluminada por Beto Bruel ; nos figurinos de Carol Roz predominam o branco, o preto e o vermelho. Tudo isso resulta em espetáculo visualmente muito bonito.

    A atração também está nos intérpretes a começar pelas duas atrizes que interpretam as freiras interlocutoras dos “papas”. Carol Godoy como a jovial Irmã Sofia e Eliana Guttmann que tem presença marcante em cena como Irmã Brigitta.

    Para os papeis dos “papas” era necessário intérpretes talentosos e carismáticos e a escolha não poderia ter sido melhor: Zécarlos Machado (Papa Bento) e Celso Frateschi (Cardeal Bergoglio) têm um grande momento de suas carreiras nesse duelo interpretativo do qual quem sai ganhando é o público ao presenciar essa magia que só o teatro pode oferecer. 

    O embate da cena do primeiro encontro entre eles é digno de estar em qualquer antologia teatral e já coloca essas interpretações entre as melhores do ano.

    Pelas mãos de Munir Kanaan e dos dois atores, um tema que poderia ser árido resulta em um belo, importante e palatável espetáculo que enriquece a temporada teatral de 2025.

            DOIS PAPAS está em cartaz no SESC Santo Amaro até 27/04 com sessões às sextas e sábados às 20h e aos domingos às 18h.

           ABSOLUTAMENTE IMPERDÍVEL!

14/04/2025


domingo, 13 de abril de 2025

PAI CONTRA MÃE ou VOCÊ ESTÁ ME OUVINDO?

 

    Machado de Assis não é lembrado pelos textos teatrais que escreveu, porém, as adaptações de seus romances e contos têm rendido bons espetáculos. 

    É o caso do conto “Pai Contra Mãe” que resultou em uma brilhante montagem de José Fernando Peixoto de Azevedo (“Ensaio Sobre o Terror”) em 2023 e agora inspirou Jé Oliveira para escrever a dramaturgia de “Pai Contra Mãe ou Você Está me Ouvindo?”

    Jé Oliveira do “Coletivo Negro” optou por uma extensão do conto fazendo uma relação das personagens do original ambientado no início do século XX (Arminda e Cândido) com figuras contemporâneas (Zaíra e Osvaldo).

    A peça é dividida em um prólogo onde aparecem as situações e personagens do conto de Machado de Assis. Na parte 1 são apresentadas as personagens contemporâneas e a parte 2 é a história propriamente dita e que consta da sinopse.

    Atuações impecáveis de Aysha Nascimento (Arminda/Zaíra) e Raphael Garcia (Cândido/Osvaldo). Flávio Rodrigues tem atuação muito “over” para um narrador que costura todo o espetáculo e que é responsável por dirigir a pergunta ao público “Você está me ouvindo?”

    O elenco canta as canções as composições originais de Jé Oliveira e Jonathan Silva acompanhados pelos músicos Lua Bernardo, Maurício Pazz e Thiago Sonho.

    A trama deixa clara a questão da escravidão que ainda ecoa nos dias da hoje como é ilustrado com o tratamento dado a uma mulher negra (Zaíra) ao ser acusada de ter feito um roubo no supermercado.

    Espetáculo forte e importante ao qual faria bem uma enxugada principalmente na parte 2 que se estende além do necessário e uma contenção na interpretação do narrador.

    Parabéns “Coletivo Negro”!

PAI CONTRA MÃE ou VOCÊ ESTÁ Me OUVINDO? Está em cartaz no Teatro Anchieta até 27/04 de quinta a sábado às 20h e domingos às 18h.

13/04/2025