sábado, 23 de maio de 2026

NA ANATOMIA OCA DOS PÁSSAROS

 

Fotos de Guto Muniz

A arte tem de ter algo que me tira do chão e deslumbra”

(Ferreira Gullar) 

Inicio esta matéria com um chavão: a sensibilidade à flor da pele das duas euritmistas que abrem o espetáculo é transmitida de imediato para o público que acompanha deslumbrado a evolução da cena.

Este escrito pode parecer exagerado, mas poucas vezes em minha longa trajetória como espectador tive essa sensação de deslumbramento a que se refere Ferreira Gullar na frase em epígrafe.

        O mote da peça de Dino Bernardi é o dilema e o remorso de Santos Dumont diante do uso bélico e destruidor de sua invenção. As divagações do inventor são ditas de maneira solene por Fernando Aveiro, provando sua versatilidade, haja vista sua composição gaiata e extrovertida em “Lokona” (ainda em cartaz no mesmo espaço).


        Leigo no assunto recorri ao Google na definição suscinta de euritmia: “Ela tem como objetivo tornar visível através do corpo aquilo que normalmente apenas ouvimos; traduzindo ritmos, melodias, vogais e consoantes em gestos.” e isso realmente se torna visível nas impressionantes performances de Marília Barreto e Renate Nisch, algo bastante distinto de uma coreografia para ballet ou da expressão corporal de atores em peças de teatro. Fica difícil traduzir em palavras, mas é diferente e extremamente sensitivo.

        O diálogo cênico entre o gestual das euritmistas, os sons sofisticadíssimos compostos por Marcelo Petraglia e executados ao vivo por Luis Antonio Ramoska (fagote) e Saulo Camargo (percussão) e as intervenções de Fernando Aveiro como Santos Dumont é indescritível.

        Somam-se à beleza da encenação de Dino Bernardi, os objetos de cena criados por ele e Cesar Rezende e a iluminação de Thiago Capella.

        Nem sempre a soma de tantos talentos resulta em algo poderoso e belo, mas neste caso está mais que provado que dois mais dois é muito mais que quatro.

        Só vendo! Só vendo!

        Vejo no release que este espetáculo data de 2019 e fico muito surpreso que nesses sete anos não tenha tido a repercussão merecida por parte da crítica nos palcos paulistanos.

        Ainda há tempo dos sensíveis de plantão degustarem esta obra prima no Teatro Manás Laboratório até 29 de maio, com sessões de quarta a sexta às 21h.

 

        23/05/2026       

 

 

Um comentário:

  1. A profundidade da peça e a sensibilidade dos atores trás uma reflexão sobre sonhos, criação, responsabilidade e valores que as ações humanas estimula na subjetividade de cada um a direção e o resultado da criação... como uma flecha 🏹..vc sabe quem atirou mas não sabe onde vai e o que vai resultar...

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